Opinião
Algo de podre no reino da sa�de p�blica
Estarrecedores são os números: 80 mil casos registrados de diarreia em dois meses de misterioso surto desencadeado no interior alagoano. 51 pessoas já morreram durante este tempo. Estarrece também a falta de respostas para tamanho despropósito. Os dados levantados em recente entrevista coletiva das autoridades sanitárias do Estado lançaram ainda mais dúvidas sobre o problema. Uma dessas informações daria conta de que no vizinho Estado de Pernambuco uma (ou a mesma?) disenteria teria alcançado 130 mil vítimas, mas ceifado apenas seis almas. Ora, em sendo verdade, por que tamanha diferença entre os índices de mortandade em duas áreas limítrofes? Não convence também uma aparente priorização da suspeita sobre a contaminação a partir da água coletada em cacimbas, afinal, em sendo procedente tal questão, o que teria causado tamanha expansão dos agentes patológicos pelos lençóis freáticos de tão vastas áreas em Alagoas (e em Pernambuco)? Afinal, as constatações levantadas, de que as populações das áreas menos urbanizadas não têm ?cultura do uso do hipoclorito de sódio nem de ferver a água?, são tão verdadeiras como a ancestralidade da deseducação sanitária. Afinal, em sendo tradição cultural (negativa), como surtos dessa natureza e dimensão não se consolidaram, felizmente, como endêmicos? Estamos diante de uma manifestação com características de epidemia, com o surto diarreico alcançando uma inusitada área de 16 municípios alagoanos de forma muito preocupante. Apesar das responsabilidades por esse trágico acontecimento estarem sendo jogadas no fundo do poço, ou das cacimbas, é extremamente importante que todas as demais possibilidades sejam investigadas com idêntico denodo. As águas distribuídas por carros-pipa e até pelos canos da Casal devem ser estudadas com o máximo detalhamento, pois a dramaticidade da situação exige uma investigação minuciosa. E rápida. Há algo de muito podre no reino da saúde púbica em Alagoas. Não se pode condescender com qualquer perda de tempo, muito menos aceitar o descarte de vetores naturalmente suspeitos. Está em jogo a vida de milhares de alagoanos.