Opinião
UMA NOITE NA ACADEMIA
Quando se fica frente a frente com o público num auditório repleto de pessoas, o primeiro pensamento que ocorre é o de preocupação: será que tudo vai dar certo? Numa ocasião como essa, há que dizer de si para si palavras de estímulo e autossugestão: está tudo bem, vou manter o autocontrole, não há o que temer. Entretanto, na minha posse na Academia Brasileira de Médicos Escritores ? Abrames, semana passada no Rio, nada disso aconteceu. Senti-me confiante. Tudo ajudava. Um ambiente cálido e fraternal, boas companhias, familiares, alguns amigos de longa data que fazem parte dos meus alicerces emocionais. Repeti, de mim para mim, que a vida de um homem é cada instante ? eternidade onde tudo se cristaliza, centro de irradiação que retorna a outrora e aponta o amanhã. Ao contrário do pensamento inicial da necessidade de palavras de autoestímulo, ocorreu-me outra ideia que me perseguiu durante instantes e tive de afastar: largar o discurso escrito e trabalhado, e falar de improviso ao sabor da emoção e em função do sentimento que me tomava. Dominei o impulso e segui o protocolo. Lembrei da formatura do meu curso de Medicina pela semelhança com a solenidade da Academia. A formatura é o passo inicial da carreira médica: num outro extremo, a academia é o degrau mais alto de uma escalada profissional e científica. Na minha formatura de Medicina, orador da turma, conclui o discurso com os versos do padre Antônio Thomaz: ?Quando partimos no verdor dos anos,/ Da vida pela estrada florescente,/ As esperanças vão conosco à frente,/ E vão ficando atrás os desenganos./ Rindo e cantando, céleres e ufanos,/ Vamos marchando descuidosamente;/ Eis que chega a velhice, de repente,/ Desfazendo ilusões, matando enganos./ Então, nós enxergamos claramente/ Como a existência é rápida e falaz,/ E vemos que sucede, exatamente,/ O contrário dos tempos de rapaz:/ ? Os desenganos vão conosco à frente, / E as esperanças vão ficando atrás./. Cultivo a esperança. A vida é reiniciada e reinventada a cada dia. Após a formatura, lancei-me à especialização e depois a vida prática da medicina, difícil convívio entre o nascimento e a morte, doença e cura. Décadas depois, voltei à literatura, ao fazer literário, à busca da palavra exata transmissora do sentido; dedicação à crônica e aos escritos, que me causam prazer. São 16 anos de crônicas semanais na Gazeta de Alagoas. Ah! Guardarei aquela noite na Academia para minha recordação, quando o futuro for presente e aquele momento for passado e estiver inserido nas dobras das boas recordações.