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Opinião

NOSSOS INIMIGOS E NOSSOS HER�IS

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Quando exercia o cargo de prefeito em Palmeira dos Índios, Graciliano Ramos se viu envolvido naquilo que podemos chamar de bela enrascada. Lutava com exíguos recursos para dar à cidade uma aparência digna. ?O estado sanitário é bom. (...). Cães, porcos e outros bichos incômodos não tornaram a aparecer nas ruas. A cidade está limpa.? Informava em seu famoso relatório. No entanto, chegar a este requinte de higienização urbana lhe custou algumas brigas, pois muitos eram aqueles que não abriam mão de criar porcos, cães, cavalos, bodes e até vacas pelas ruas; inclusive o comerciante Sebastião Ramos, a quem o prefeito mandou multar por desobedecer ao código de postura. ?? É verdade que o senhor mandou me multar??, ?? É, sim?. ?? Mas eu sou seu pai!?. ?? Pois aprenda que prefeito não tem pai?. E manteve a punição até que o pai mandou recolher os porcos que corriam livremente entre os cidadãos de fato. Em Paraty, impressionou-me o número de cães que circulavam soltos pelas ruas durante a Flip. Não me pareceram cães vadios, e como a festa homenageava nosso escritor, passei a acreditar que eram uma singela homenagem a Baleia, a mais decantada de nossas cachorras literárias. Para encantar o turista, Paraty procura se manter como uma cidade limpa. Em Alagoas, a situação é bem outra. Toda ação positiva esbarra na falta de sentimento republicano de nossa elite. Essa gente cria privilégios absurdos e sai mundo afora gritando seus supostos direitos inatacáveis e afrontando o homem comum. Contra isso, lutou, e ainda luta, a juventude que se espraia por todos os cantos do país. O problema é que eles remam contra a maré insana que teima em dilapidar nosso estado. Enquanto Paraty preserva seu casario para garantir uma fonte de renda inesgotável para o povo caiçara, nesta parte de cá da terra privatizamos até as praias. Nosso patrimônio imaterial ? pastoris, cheganças, guerreiros ? já sequer mendigam o apoio do poder público, pois as tais secretarias de cultura usam toda a verba disponível para bancar altos cachês de bandas rebolativas. Neste eterno jogo de mocinhos e bandidos, nos alenta a movimentação das ruas. Aos olhos da juventude, nada mais neste país pode ficar impune, ou imune, à pressão da consciência livre. Ainda bem!

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