Opinião
O CENTEN�RIO DE SEU AMORIM
Desculpe, leitor, se faço uma homenagem tão particular e pessoal ao meu pai. É o ano de seu centenário. Nasceu em 13 de agosto de 1913. Não sei se foi numa sexta. Mas não importa, tendo conhecido o velho Olimpio de Amorim. Não era nenhuma personalidade importante, embora tivesse o charme do Bartolomeu Coleone, desenhado de perfil, por Leonardo da Vinci. Quando nasci já era um sujeito maduro, com mais de quarenta anos, os cabelos loiros tinham ficado brancos e emoldurava o rosto sóbrio de pele avermelhada. O maior mérito do motorista Amorim era ser estimado por todos que o conheciam. Não tinha inimigos. Adorava caçar marreca no outro lado do Rio Marituba, em meio aos arrozais, onde as garças levitavam com suas grandes asas brancas. Eu com oito ou nove anos era encarregado de encher os cartuchos. Negligenciava a tarefa enquanto ele viajava. Quando estava perto de chegar, minha mãe avisava. Então eu começava a preparar as buchas de papelão, redondinhas, feito confetes e as de corda. Colocava a espoleta na cápsula vazia, um pouco de pólvora medida e a primeira bucha de corda. Então colocava as bolinhas de chumbo e encerrava com a bucha de papelão. Pronto! Estava terminado. É pelo menos o que parecia. Mas o fato é que na hora do tiro, ou saia chumbo demais e destruía a ave, ou a espingarda dava um tiro fofo. Meu pai só fazia rir. ? Você não vê as medidas certas de chumbo e pólvora? ? Serviço de menino era assim mesmo. Meu pai gostava demais de cinema. Conheci o Cine São Francisco, de Penedo, desde que foi inaugurado. Ficava encantado com os painéis laterais se abrirem, enquanto notas musicais registravam a abertura das cortinas, uma luz inicial aparecia sobre elas e a telona surgia. Era todo um preparativo até chegar à porta do cinema. Minha mãe preparava o jantar. Organizava a roupa de cada um sobre a cama. Depois comia apressada para ir se vestir, já meu pai no meio da rua gritando: ? Zélia, já botou os espartilhos? ? Ela ficava uma fera, pois já havia deixado de usar espartilhos, mas ele insistia. E com tanta pressa, chegávamos sempre adiantados. ? As portas ainda estão fechadas! ? Dizia minha mãe com tom de deboche. Mas meu pai tinha sempre uma saída: ? A gente espera o padre é na porta da igreja. Pior, quando o filme era impróprio para a minha idade. Não tinha quem conseguisse convencer o velho de que eu não poderia entrar. ? O filho é meu, quem manda sou eu. ? E eu entrava mesmo. Na volta, ele mesmo fazia questão de mostrar que eu dormia.