Opinião
Desfaz-se a miragem da primavera �rabe
Continua chocando o mundo a escalada de violências no Egito. Além das incertezas quanto ao futuro imediato de uma das nações mais importantes para o (frágil) equilíbrio entre os muitos países e povos conflitantes no Oriente Médio, uma certeza atroz evidencia o estelionato ideológico em se batizar a onda de rebeliões árabes como ?primavera?. Qual primavera, cara-pálida? Ali, naquele pedaço sofrido de Velho Mundo, a natureza reafirma-se distanciada dos padrões europeus e suas emblemáticas quatro estações. Por aquelas paragens agrestes, curtidas pelos milênios de história, parece mais correto usar o termo ?monção?, palavra árabe que significa chuvas torrenciais, intensas, persistentes e mormente destruidoras. Minada por análises preconceituosas, a cultura ocidental tem pouca ou nenhuma familiaridade com os grandes dilemas e as contradições próprias das sociedades árabes, asiáticas e, especialmente, dos povos muçulmanos. Os maiores centros de informação e espionagem do mundo, localizados nos Estados Unidos, parecem perplexos com o andar da carruagem na antiga pátria dos faraós, e essas inconsistências reverberam no posicionamento dúbio da Casa Branca e até no mutismo da oposição republicana. Em se falando da única superpotência do mundo, isto tem lá sua importância, até porque o Cairo sempre se manteve alinhado com Washington. Agora, a casa está a cair. Tudo indica que a tal Irmandade Muçulmana não é coisa tão descartável assim e a verdade das ruas mostra que essa organização está mais enraizada que supunha a vã filosofia ocidental. E o mais grave, os manos estão provando-se preparados para a luta cruenta e para sacrifícios de monta. Os confrontos de rua nas últimas horas deixaram centenas de mortos e feriram gravemente a esperança de uma transição pacífica entre formas e titulares do governo do Egito. E no horizonte áspero, seco, a presunção da mídia ocidental sobre uma ?primavera árabe? se desvanece, rapidamente, tal qual miragem.