Opinião
ENTRE A BADERNA E O AUTORITARISMO
Leonardo Da Vinci, já havia pintado A Mona Lisa e A Última Ceia, entre outras obras primas. Ao voltar de Milão para Roma, mesmo consagrado, as desfavoráveis reviravoltas políticas o fizeram emigrar para a França, não sem antes gritar para seus algozes: ?Quem discute alegando autoridade não usa a inteligência, mas a memória?. Amor e ódio, paixão e repulsa, entre outros, são extremos que na prática muito se aproximam. Os episódios recentemente ocorridos no país, tanto nas ruas, como nas mais altas instituições nacionais, nos obrigam a reconhecer entre eles, as sempre presentes tentações do ser humano para descambar para os extremos: seja a baderna em um, seja o autoritarismo no outro. Como no Congresso ? como se viu essa semana com a invasão do plenário da Câmara ?, os movimentos populares que reavivaram a democracia brasileira, cada dia mais sofrem a intrusão de baderneiros; como no STF, ocorreu o oposto: o presidente Joaquim Barbosa, por mais que pudesse ter razão, em um momento crítico, com sua tempera mercurial, excedeu-se em sua postura autoritária com Lewandoswi, por mais que ele justificasse um puxão de orelhas. Como resultado, na sessão seguinte, Barbosa teve a maioria de seus pares solidários a Lewandovswi, deixando-o em constrangedora situação. No extremo oposto, incontestavelmente, a baderna prevalece: exemplos repetidos têm mostrado policiais acuados por vândalos por todos os lados e em algum momento, até para se safar do sufoco, usam um spray de pimenta ou até um disparo de bala de borracha. Logo são acusados de excessos na sua ação e execrados publicamente. Esses extremos, a baderna e o autoritarismo, são versões diferentes de uma mesma cultura e estão muito vivos e presentes na vida pública e na sociedade brasileiras. Essa semana, tivemos uma sequência mais equilibrada e civilizada no julgamento do mensalão. Mas ela não findaria sem uma explosão de autoritarismo: a presidente Dilma, desprezando as leis vigentes no país, alardeou que vai, sim, trazer 4.000 médicos cubanos. Existe, inequivocamente, a sensação de que o país ruma sem segurança, sem ordem e sem respeito. A baderna deve ser combatida rigorosamente, mas na relação republicana, o exercício da autoridade precisa ser diferenciado do autoritarismo. Barbosa, uma referência necessária na cena pública nacional, necessita se conter, não se ombrear com Dilma e incorrer no risco aventado por Cantú: ?A autoridade que não é equilibrada é tirania?.