Opinião
Brechas impressionantes em nosso sistema penal
Como diria o angustiado Hamlet na genial peça de Shakespeare, ?existe algo de podre no reino...?. Certamente, aquele personagem imortal, se aqui vivesse, teria certeza de que algo em decomposição existiria em nosso sistema penal ao constatar que um cidadão, aos 72 anos, acusado por recorrentes crimes de todos os tipos, inclusive de morte, consegue viver livre, leve e solto, continuadamente acusado de envolvimentos sucessivos em atividades criminosas. Este é o caso que se nos apresenta com a mais nova acusação assestada contra o notório alagoano ?Chapéu de Couro?. Tornado celebridade nacional quando da Chacina da Gruta, quando foram trucidados a deputada Ceci Cunha, seu esposo e familiares, a esse personagem foi dada a chance de falar no próprio Congresso Nacional. Depois desses momentos sob os holofotes, malgrado o rol de acusações e processos a pesar sobre sua pessoa, não mais se ouviu falar de Maurício Guedes. Eis que uma operação batizada como ?Valquíria?, desencadeada no vizinho Estado de Sergipe, ao investir sobre uma quadrilha acusada de várias ações criminosas, logra prender entre os acusados o citado Maurício Guedes, mais conhecido como Chapéu de Couro. Desbaratada, a súcia revelou-se grande, evolvendo pelo menos 34 pessoas. Destas, três perderam a vida por resistirem, à bala, à prisão. A lista de acusações é farta, englobando tráfico de drogas, crimes de morte por encomenda, roubo de cargas, assalto a bancos, lavagem de dinheiro e jogatina. A ação policial resultou também na apreensão de armas, munição, dinheiro, maconha, cocaína, 20 automóveis, oito motocicletas, aparelhos celulares e joias, dentre outros objetos. Coisa grande. Atuando em diversos Estados, o grupo criminoso mobilizou as atenções das polícias de Pernambuco, Bahia e São Paulo, além dos agentes sergipanos. Além dos merecidos elogios aos agentes policiais que construíram esse avanço sobre a criminalidade, o caso merece o aprofundamento de inevitáveis perguntas: Como e por que um cidadão, cuja vida é notoriamente dedicada ao crime ao longo de décadas, vivia em liberdade total ao ponto de se engajar em mais uma quadrilha deste porte, aos 72 anos de idade? De fato, uma questão hamletiana...