Opinião
PROGRAMA MAIS M�DICOs
A polêmica quebra de braços entre o governo federal e instituições ? conselhos e sindicados ? dos médicos desvia a atenção para a real situação da estrutura de assistência da saúde e, também, para a formação e o nível de compromisso social dos profissionais de medicina no Brasil. É experimentado pela maioria da população e lido, ouvido e visto por quem se interessa pelo assunto que a condição da assistência da saúde no Brasil é caótica, apesar das grandes conquistas científicas e tecnológicas. Especialmente para a grande parcela da população que é usuária do Sistema Único de Saúde (SUS), o acesso à consulta e atendimento nas unidades de Urgência, as que atendem às necessidades de enfermidades mais simples ou as mais complexas, não é somente um purgatório, mas o inferno em seu estado pleno. E isto ocorre não somente por falta de recursos financeiros e humanos, mas também, de gestão, em nível do ministerial, das secretarias de saúde estaduais e municipais, como também de diretores das unidades. Nesse contexto, a contratação de mais médicos, resolve o problema? Óbvio que não! Até por que os mesmos não irão, e não deverão!, atuar nesta área. Simplesmente deslocou o problema e colocou-o para debaixo do tapete. Então, colocam-se duas questões. Primeiro, se não resolve, por que importar médico? E, seguindo as falas das referidas corporações médicas, existem, numericamente, médicos suficientes no Brasil para atender às demandas da população. Segundo, se existem profissionais, porque não estão disponíveis para prestar o atendimento nas áreas mais necessitadas e mais distantes do território nacional, onde estão localizadas as populações mais carentes e desassistidas? A excelência adquirida pela medicina brasileira está circunscrita ao atendimento de parcelas reduzidas e abastadas da sociedade, tratada, sim, com cuidados especiais e afagos, e centrada nas metrópoles. Se fosse acessível para todos, não se assistiria médicos que olham para a pessoa que o procura nos ambulatórios públicos, e mesmo sem encostar o estetoscópio, já prescrevem o medicamento, quando consegue chegar até eles. Apesar de não resolver, o programa do governo federal promoveu a revelação, mesmo que indiretamente, do verdadeiro sentimento e concepção de segmentos da classe média brasileira, sua face conservadora, reacionária e até xenófoba para com a maioria da população.