Opinião
M�dicos em f�ria e cidadania doente
Causou espécie a agressão armada por supostos médicos tupiniquins à chegada da primeira leva de médicos estrangeiros, não por acaso cubanos, quando de seu desembarque na capital cearense. Em certa medida, lembrava o condenável espetáculo de intolerância orquestrado, no ano passado, contra o tour de uma afamada blogueira cubana por cidades brasileiras. Entre as duas demonstrações de estupidezes e radicalismos verbais, a diferença mais sensível é que a moça ganha a vida exatamente com aquele tipo de promoção gratuita, ideológica, enquanto que os profissionais de saúde aqui aportam para a realização de um trabalho de salvamento de vidas. A vaia, para eles, é negativa; para ela, é positiva. No caso da blogueira cubana, os imbecis protestos transformaram uma apagada passagem pelo Brasil num badalado acontecimento pela mídia local e internacional. Fora do barulho dos manifestantes, a presença da jovem habanera foi um fiasco total, resumindo-se a passeios mudos por algumas cidades turísticas. Neste caso dos médicos estrangeiros, especialmente vindos de Cuba, esses protestos imbecis expõem uma faceta muito mais perniciosa, pois reafirmam a disposição xenófoba e corporativa (mais esta que aquela) de impedir a realização do trabalho que esses profissionais possam vir a fazer no Brasil profundo e desassistido. A jovem cubana, badalada blogueira, aqui esteve de passagem, pois seus financiadores internacionais exigem que seus posts sejam feitos exclusivamente de Cuba. Fora da ilha, a intrépida moça perde o viço e não mais atrairia os dólares que, naturalmente, são só seus, verdinhas das quais o fisco cubano não vê um vintém. Vir, ser vaiada e voltar é a glória. E assim foi. Efêmera, mas rigorosamente exitosa. Os profissionais de saúde estrangeiros, notadamente os cubanos, aqui chegam para ficar um bom tempo. Vêm para trabalhar duro em postos renegados por seus colegas nativos; ocupam espaços vazios. Certamente, terão muitos problemas com a língua, mas muito mais problemas têm os brasileiros que não dispõem de médicos aos quais possam dirigir suas palavras de dor. Nenhum desses visitantes estrangeiros, cubanos particularmente, merecem vaias. A moça e os médicos chegam ao Brasil para fazer seu trabalho. Merecem aplausos e apoio.