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Opinião

Romantismo popular

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GILBERTO MACEDO * No romantismo popular, da expressão desse estado d?alma do povo, originada espontaneamente, e até de maneira imprevista, nas camadas primitivas da sociedade. Bem no âmago dos sentimentos, no arcaico dos valores, livre de quaisquer influências estranhas. Total autenticidade. Sem mistura de artifícios, nem de formalismo estudados. Trata-se da História sentimental da etnia brasileira, sincera e verdadeira. É a identidade cultural do povo, assim definido. Revelação do passado e do presente de uma comunidade. Assim, do amor-devoção, uma imagem de exclusiva perfeição. ?Eu penso noite e dia em ti, e sou feliz assim, os meus olhos azuis, eu e tu, e nada mais?. E, do amor-adoração que se ouve: ?Ah! Grande adoração, que eu sinto por você, meu amor, e o meu coração pela luz vibrante dos olhos teus cresceu com a vastidão do mar... sorrindo a estrelas e subindo aos céus...? Outra manifestação é o do lamento triste, de tempos distantes, do esquecimento indiferente, dito em voz embargada (Casinha Pequenina): ?Tu não se lembra da casinha pequenina, onde o nosso amor nasceu, tinha um coqueiro, de lado, que coitado, de saudade, já morreu!...? E o apelo angustioso, na busca desesperada (Juazeiro): ?Juazeiro! Juazeiro! Me arresponda, por favor, Juazeiro! Juazeiro! Onde está o meu amor! Ai! Juazeiro, ele nunca mais voltou!...? Não menos pungente, no sofrimento do adeus que assinala o amor que se foi (Cinco letras que choram, adeus...): ?Adeus! Adeus! Adeus! Cinco letras que choram, num soluço de dor... Quem parte, tem os olhos rasos d?água, ao sentir a grande mágoa por se despedir de alguém. Quem fica também fica chorando, com o coração penando, querendo partir também. Adeus!...? Ainda, na saudade magoada, na queixa lânguida, em face do singelo namoro proibido (Sodade Matadera): ?... No cercado da cancela, ia me encontrar com ela... ela era bonitinha, ela era engraçadinha, eu chamava ela coisinha, mas para o povo dela era Mariá... não gostaram do namoro... faz um ano levaram Mariá Ai! Ai! Que saudade!...? Pois, a saudade pode ser fatal, através do extremo sofrimento, de que fala a música patética (A Saudade é dor pungente): ?A saudade é dor pungente, morena a saudade mata a gente, morena...? E no queixume aflitivo, sem ilusão, conformado (Quanta tristeza): ?Quanta tristeza, eu trago no meu coração, a vida mesmo é sempre assim, eu amo alguém que não gosta de mim?. Também na desilusão conformada, inapelável, da desdita: ?Toda gente no mundo, tem seu amor, tem seu bem, pra esse canto do mundo, só o meu que não vem...? Por outro lado, a solidão aflita dilacera o coração, sem qualquer esperança (Ninguém me ama): ?Ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me abraça...? Doutra parte, a disponibilidade para sonhar revela-se tocante (Misterioso Amor): ?Misterioso amor, eu te senti a noite inteira, nos beijos que me destes, nos sonhos lindos que sonhei...? E mesmo a paixão, sem limites, e sem ponderação, também é cantada, como se vê: ?Eu não quero saber quem tu és, de onde vens, nem pra onde tu vais, sei apenas que são tão cruéis, os teus beijos, mas beija-me mais?. Assim, conhece-se um povo e sua sociedade, em suas manifestações mais primitivas, fidedignas, em sua representatividade. Dos sentimentos projetados pela imaginação criativa. Romantismo, ainda indicativo da resistência cultural ante às pressões vindas de fora, a partir do chamado progresso material, no curso da evolução social. Preservação da identidade social. (*) É MÉDICO E ESCRITOR

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