Opinião
O CICLO DO ALGOD�O E AS VILAS OPER�RIAS
?Por quais caminhos chegamos ao labirinto do presente??. É uma feliz expressão de Tavares Bastos. Concluí, não faz muito tempo, a leitura da obra histórica O ciclo do algodão e as vilas operárias, de autoria do professor e historiador Douglas Apratto Tenório e coautoria do professor Golbery Luiz Lessa. Lembrar é reviver. Lembro, de maneira nítida, na minha infância, as extensas plantações de algodão de minha região, visual de extraordinária beleza, flocos brancos abertos ao sol de verão. Não será exagero dizer que o algodão foi um dos responsáveis pelo surto inicial da industrialização do Estado, no final do século 19, através do surgimento das indústrias têxteis, e, em consequência, do aparecimento das vilas operárias, uma novidade em relação ao mundo agrícola da época. Um nome pioneiro agiganta-se nesse campo: Delmiro Gouveia, que consolidou a iniciativa de aproveitamento das águas da cachoeira de Paulo Afonso, como fonte de energia e propulsora de uma fábrica de linhas e tecidos. Uma inovação tecnológica na qual o esforço muscular e a habilidade manual do artesão foram substituídos pelo fluxo de energia e operações mecânicas. O desenvolvimento conseguido no parque fabril da cidade da Pedra (hoje, D. Gouveia), concorrendo com indústrias do Sudeste e dos EUA, despertou invejas e ressentimentos. O assassinato de Delmiro continua um mistério. Mas um fato chamou a atenção nacional. Meses depois de sua trágica morte, uma companhia estrangeira, a Machine Cotton, adquiriu a fábrica da Pedra e jogou todas suas máquinas no redemoinho da cachoeira de P. Afonso. Ao assassinato, juntou-se esse outro crime monstruoso. Mas há outros nomes significativos em relação às indústrias têxteis que chegaram ao apogeu nas décadas de 1930 a 1950: Gustavo Paiva, em Rio Largo; Comendador Peixoto, em Penedo; Abelardo Lopes, em São Miguel dos Campos, entre outros. Cidades e distritos cresceram com as vilas operárias que reuniram milhares de pessoas, com influência social e política nas regiões. Inclusive a obra em referência destaca o nome dado a uma cidade do semiárido alagoano, Ouro Branco, decorrente de seu crescimento no período áureo do algodão. O livro recém-editado é resultado de uma minuciosa pesquisa em que foram entrevistados operários remanescentes dessa época e visita às ruínas dessas vilas. Douglas Apratto e Golbery Lessa, o fotógrafo José Ronaldo e a relevante colaboradora Ivone dos Santos Apratto, trazem uma preciosa contribuição ao estudo dessa temática.