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Marcos David Melo * Sair de casa à noite durante a semana só em ocasiões especiais. Este é um lema ao qual me acomodei já faz um bocado de tempo. As razões são variadas: para dormir cedo, acordar cedo, caminhar na praia e beneficiar a saúde; cansaço da labuta do dia, acomodação às comodidades domésticas e simples preguiça. Na semana passada todavia, dois eventos seguidos, logo na segunda-feira e na terça, tiraram-me do conforto do meu sofá, dos contos de Tchecov e do piano de Eroll Garner. Um aniversário de 50 anos em uma inacreditável segunda-feira, levou-me até o Farol, deslocamento que cada vez faço menos. Evito a Fernandes Lima tanto quanto evito a Aché music e o mosquito da dengue. Felizmente, providenciaram para o aniversariante outro tipo de música ao vivo e de qualidade, além de pronunciamentos sinceros e homenagensemocionadíssimas. Parentes e amigos se revezando no apelo à memória e na demonstração de afeto, carinho e respeito a Eduardo Lyra, este emérito professor da Ufal, homem de talentos múltiplos, entre os quais a vocação para investir e se engajar na preservação de nossa cultura popular. Entre os inúmeros presentes que recebeu, o que mais o impressionou foi um encorpado guia sexual especial para o homem cinqüentão, cujas páginas estavam totalmente em branco. Na noite seguinte fomos à posse do emérito colega Milton Ênio na Academia Alagoana de Letras. Fazia algum tempo que não adentrava àquela venerável casa de culto às inteligências soberanas. Desde o ad patres do fraterno amigo Carlos Moliterno, o seu nome justamente dado aquele auditório é um alento para todos os seus admiradores. Uma solenidade digna do sideral valor do Miltinho. Abrindo a sessão, um discurso dos mais eruditos do ilustre presidente, o prof. Ib Gatto Falcão, que não só remodelou a Academia, como deu-lhe novos horizontes e desafios, seguido de um pronunciamento inesquecível do empossado naquela noite. Como é do seu feitio, o sensível Milton Ênio priorizou as suas lembranças pessoais, nas quais os pais, os parentes e os velhos amigos, além da sua dedicação à medicina, foram carinhosamente ressaltados e devidamente valorizados. Ligando umbilicalmente as duas solenidades e principalmente os dois homenageados, entre outras peculiaridades, a importância que ambos dedicam às suas recordações pessoais junto aos pais falecidos, a outros parentes e aos amigos da juventude. Remexendo no baú de suas memórias, revolvem com as nossas e é como se o tempo de repente voltasse beneficiando a todos. Pode-se entrar para a imortalidade pela via acadêmica, como o Milton ou pelo da militância na cultura e na memória da comunidade, como o Eduardo. São homens de alta envergadura e, mesmo assim não se desgrudaram daqueles valores e sentimentos mais nobres do ser humano: a saudade, a ternura, o afeto mais puro. Podem entrar também, sem contestações, para o rol das personalidades públicas mais notáveis da atualidade da nossa terra e aqui certamente, estou apenas me agregando à opinião da maioria. (*) é médico

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