Opinião
A banaliza��o do mal em vers�o tropical
Alguns acontecimentos têm o poder de se sobressaírem aos semelhantes, mesmo quando a repetição não é novidade. Este é o caso do assassinato do empresário Admir Gusmão Nascimento. Seria apenas mais um dos homicídios praticados diariamente em Alagoas, mas algumas particularidades o fazem especificamente assustador. Destaca-se o trucidamento daquele homem de 67 anos mesmo em meio à banalidade que passou a permear os crimes de morte em nosso estado. Salvo alguma incorreção nos dados coletados pela polícia e pela imprensa, o cidadão foi baleado durante um assalto perpetrado em plena luz do dia, numa das avenidas mais movimentas da capital alagoana. As circunstâncias do acontecimento provocaram justa comoção, como que fazendo a opinião pública, mais uma vez, ser sacudida de seu torpor. Mas o que se sucederá a mais este momento de indignação dos alagoanos? Será dado um basta a esta realidade? A polícia reagirá à altura, identificando e prendendo o criminoso? Verdade é que existe alguma possibilidade, mesmo remota, do meliante ser identificado, preso e processado. Mas não parece haver chance de um basta ser dado contra esse descalabro. Os criminosos parecem se multiplicar numa espiral geométrica, tal qual uma praga para a qual não existem predadores naturais. Simplesmente, proliferam. Simplesmente, não são contidos por nada, ou nada é feito para contê-los ? o que, ao fim e ao cabo, dá na mesma. O resultado é este: mata-se sob a luz do sol, sob a vista de todos. E as autoridades, impotentes, apenas constatam. E, se não estiverem em greve, agentes públicos registrarão o fato em boletim de ocorrência. Vez por outra, a indignação popular transborda em protestos vigorosos, como no caso do igualmente estúpido assassinato do médico José Alfredo, cometido na mesma região, também aos 67 anos, no dia 26 de maio do ano passado. Infelizmente, a repetição das mesmas cenas de violência parece minar até a capacidade de protestar. A banalização da violência, do crime de morte, em parceria com a inação do poder público frente a tal estado de coisas, corrói a capacidade de reação do povo. Reagir é preciso. Gritar que tamanho opróbrio é inaceitável é o mínimo que pode ser feito. Berrar forte, pois, quem sabe, assim as autoridades alagoanas poderão ser despertadas de seu sono imperdoável.