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NORMA BENGELL E O CINEMA DE PALMEIRA

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Norma Bengell nos deixou. Ultimamente, vivia sozinha e reclusa, assim como Rita Hayworth. Evitava aparecer em público, como parece ser o triste desígnio de grandes estrelas do cinema, que em seu apogeu nos encantaram pelo talento, pela beleza e como para poupar os seus fãs da visão da decrepitude da velhice, se escondem, na tentativa vã de se manterem eternamente jovens nas memórias e perpetuar a ilusão dos filmes feitos nas suas juventudes. La Bengell nos chegou aos tempos dos cinemas Plaza, Lux, São Luis e do Rex, onde do sobrado de tio João, já que as portas laterais ficavam abertas nas seções noturnas para aplacar o calorão, assistíamos os morcegos fazerem voos rasantes e um pedaço da tela, onde vislumbrávamos uma nesga de coxa branca na tela longínqua.O Ideal era o reduto das relações clandestinas, onde na plateia, elas superavam enormemente as das telas. Deixamos Palmeira muito cedo, mas estão fixados na memória os três cinemas que ali existiam na década de 1950. O cinema do Itamar com sua trilha sonora antecedente aos filmes: inevitavelmente, o Only You, com The Platters, tocado às alturas em alto-falantes, para que até na Serra da Cafurna se escutasse. Como o estilo de vida atual nos privou de prazeres tão caros! Recentemente, passei nove dias em São Paulo, querendo ver o filme da Anah Arrendt, cheguei a passar pela porta do cinema, voltei e terminei sem assisti-lo. La Bengel nos deixa quando os críticos afirmam que as séries para a televisão são o melhor da indústria cinematográfica atual. Na obra doada pelo Marcel Davi, A Magia do Cinema, Roger Ebert cita que François Truffaut costumava passear pela plateia durante a exibição de um filme, perscrutando a fisionomia dos espectadores iluminados pela claridade da tela. Se o filme lhes estivesse passando alguma coisa boa, seus rostos expressariam uma experiência arrebatadora: ele estaria por algum tempo em outro lugar, envolvido em outras vidas. Vi filmes em muitos cinemas, mas nenhum superou o de meu pai daquela Palmeira dos Índios das casuarinas. Morávamos na Rua da Alegria e ele, que nunca entrou em um cinema, comprou uma rústica máquina de projeção e alguns filmes mudos que passava livremente no nosso jardim para os vizinhos e os matutos que vinham para a feira. Das suas fisionomias durante as projeções, nas noites escuras de Palmeira, a única recordação é que estavam arrebatadoramente iluminadas.

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