Opinião
As greves na �poca da automatiza��o
Sem dúvida a popularização dos caixas eletrônicos, pagamentos via internet e postos de correspondentes bancários (como lotéricas) reduziram bastante o impacto negativo da paralisação dos bancos sobre a maioria da população. Mas, mesmo assim, uma grande parcela do povo, especialmente suas camadas mais humildes, comeu o pão que o diabo amassou durante a greve dos bancários. Essa constatação deveria levar as lideranças bancárias a uma reflexão de como, nas futuras greves (sempre inevitáveis) se poderia minimizar o sofrimento dos usuários. Além da atenção que o povão merece, um pouco de pragmatismo precisaria pesar sobre as definições dos métodos grevistas. Até porque aos sindicalistas deveria sopesar a constatação de que nunca é bom que o público amplie seu descontentamento com a luta salarial de qualquer categoria. No caso dos trabalhadores bancários, como todos já perceberam há muito, o avanço da informatização e da automação tem causado, há décadas, um radical recuo na oferta de vagas de trabalho no sistema bancário. Além de ser uma tendência inexorável do desenvolvimento tecnológico, o bypass (contornar, desviar, dar a volta, driblar...) no volume de tarefas antes executáveis por funcionários reais dos bancos é estimulado por dificuldades cotidianas, como as filas (apesar das leis que tentam reduzir o tempo de espera). Numa greve, então, aí é que a clientela se aproxima, à larga, dos meios eletrônicos automatizados para a realização de suas necessidades bancárias. E, aos milhões, novos usuários vão se distanciando do atendimento pessoal dado pelo bancário. Como tantas outras profissões, o bancário ainda é um ser indispensável no contato com o público, mas essa indispensabilidade reduz sua quantidade a cada momento e a cada período de parada, pressionados pela interrupção dos serviços presenciais, mais clientes encontram o mapa da mina da automatização. O que fazer? Para quem está de fora da categoria, parece evidente que as lideranças bancárias deveriam, com a mesma disposição que se lançam em defesa de seus salários, dedicar-se a cativar o cliente, a buscar formas que ? mesmo durante as greves ? não os deixem na mão. Afinal, o alvo da pressão deveria ser o banqueiro e não o cliente.