Opinião
DE HIP�CRATES A VINICIUS DE MORAES
Confesso aos meus três generosos leitores: passei a semana tentando escrever um texto dedicado ao Dia dos Médicos, 18, provocado também pelo caos da Saúde Pública (estado de emergência em Maceió, Hospital Universitário de Curitiba reduzindo leitos, Hospital de Base de Brasília quase fechando etc.), mas hoje, 19, é o centenário de Vinicius de Moraes e é impossível evitá-lo. E ocupam-me a memória passados fatos: o primeiro, o Vinicius no Festival de Verão de Marechal Deodoro, subindo a escada para se apresentar no palco, segurando na mão livre um copo de uísque e nós quase tocando-o, mas a inibição impedindo-nos de saudá-lo, de gritar o quanto o admirávamos, o amávamos. E o segundo: um livro de poesias de Vinicius, emprestado a uma jovem loura, colega de vestibular, nos sendo devolvido muitos anos depois, pela já amadurecida doutora; livro encardido pelo tempo, mas que trouxe recordações de tantas aspirações juvenis, entre elas os sonhos com o exercício da medicina. Uma medicina onde não faltassem esparadrapos, agulhas, seringas, remédios para diabetes e para hipertensão arterial, onde nos postos de saúde e hospitais, os pacientes fossem tratados dignamente e os médicos trabalhassem honradamente. Onde hospitais filantrópicos, como a Santa Casa, maior atendimento estadual, não estivesse ameaçada de reduzir os atendimentos pelos serviços prestados ao SUS sem pagamento. Onde a histórica defesa da Saúde Pública feita pelas entidades médicas, como os conselhos regionais de medicina, parceiras fiéis da população, sempre denunciando os descasos e a negligência do poder público, fossem reconhecidas justa e adequadamente pela sociedade. Quando Hipócrates, há dois mil e duzentos anos, separou a medicina da magia, criou-se um paradigma definitivo: nunca mais seria permitido aos médicos usar a mentira como ferramenta, nem com seus pacientes, nem com seus colegas, nem com a comunidade. Medicina é uma arte a ser exercida com amor e com entrega, como no verso ?Eu sem você sou só desamor. Um barco sem mar, um campo sem flor. Tristeza que vai, tristeza que vem. Sem você, meu amor, eu não sou ninguém??. O Vinicius, como Hipócrates, também nos deixou um legado de compromissos pessoais que o tempo não extingue. Entre eles, ter a verdade como inalienável bússola, mesmo que enfrentando a força e o descompromisso dos que detêm o poder.