Opinião
A MEDICINA E A RELIGIOSIDADE DO POVO
No último dia 18 foi comemorado o Dia do Médico. Grandes e profundas são as transformações pelas quais a sociedade vem passando nos últimos 20 anos. Houve progressos notáveis nas ciências médicas, as doenças são cada vez mais detectadas por aparelhos ultramodernos, os micróbios, combatidos com maior eficiência com antibióticos cada vez mais atuantes. Entretanto, pelo aumento da população, pelo imenso volume de brasileiros que dependem do SUS, a grande maioria da população tem sofrido muito nos incontáveis postos de saúde espalhados pelo Brasil, sem a mínima condição de lhe oferecer um atendimento condigno. E o povo sofre. E eles então apelam constantemente para Deus pedindo ajuda. Nosso povo é tradicionalmente religioso. Não importa qual religião que siga, a fé em Deus existe no coração das pessoas, principalmente dos humildes. Quando a doença chega, fica tudo nas mãos de Deus. Admitindo que ao lado do médico e dos remédios os santos são importantes, todas as pessoas apelam sistematicamente para eles. Durante esses 50 anos no exercício diário da medicina, pude ver como, realmente, o brasileiro tem muita fé. É interessante com é grande a relação dos santos com as doenças. Vejamos: Santa Luzia, na doença dos olhos; Santa Ágata, nas moléstias dos pulmões; São Braz, nas enfermidades da garganta; São Benedito, nas mordeduras de cobras; São Cosme e São Damião, nas doenças infantis etc. A modernidade com toda sua tecnologia não impediu o homem brasileiro, principalmente aquele que reside na zona rural, de usar a seu modo a sua religiosidade quando está doente. Quando a doença é grave, toda a família fica em desespero como é natural e, mesmo confiando no médico, na medicina científica, apelam para tudo na esperança da cura. E a conduta médica é ?auxiliada? pelos vizinhos, pelos parentes que indicam os ?pais de santo? ou o ?médico do Além?. É uma lástima que o nosso povo lute tanto pela sua sobrevivência, com renda baixa, saúde e educação em marcha lenta. Ninguém pode negar ser ainda o médico um guardião da vida, o defensor do homem contra as agressões a que está sujeito. E a despeito das múltiplas dificuldades, das greves, dos protestos que em última hipótese é obrigado a participar, é exatamente com ele que o indivíduo enfermo conta para amenizar sua dor. Que cada cidadão, depois de atravessar os obstáculos de uma dor, num mundo muito atribulado, passe a ser um missionário da esperança. Esperança é vida na vida da gente.