Opinião
LIBRA, O LEIL�O QUE N�O HOUVE
Diante do que vem ocorrendo neste país, não creio que manter o silencio seja a melhor opção. É conveniente esclarecer que não sou contra a exploração compartilhada das riquezas nacionais. Nesse aspecto, considero todas essas manifestações desarrazoadas. Se não contamos com capital próprio no volume necessário, vamos nos associar com quem dele disponha e queira trabalhar conosco sem, contudo, na condição de titulares da riqueza, esquecer de que a nós cabe ditar as regras do jogo. Meu inconformismo é de outra natureza. O governo federal ou, melhor dizendo, os políticos em geral, agem e se manifestam como se todos os brasileiros fossem massa de manobra constituída de ignorantes e desinformados, destituídos de conhecimento e senso crítico, incapazes de ver além das aparências. Refiro-me à maciça propaganda em torno do pretenso sucesso do leilão do campo de Libra, com o que se inaugura o modelo de partilha na exploração do petróleo do pré-sal. Presidente, ministros e dirigentes de estatais, alardeiam na mídia o sucesso do leilão ocorrido no último dia 21 de outubro, no Rio de Janeiro. Omitem, certamente por conveniência, que leilão não houve, e não por causa dos protestos de sindicalistas, partidários da esquerda, black blocs, et caterva, mas pelo simples fato de que só um interessado atendeu à convocação. O leilão, como todas as demais modalidades de licitação, importa em competição, em propostas diferentes que possam ser comparadas. Ausente o contraponto, não há que falar em competição. O que se viu no Hotel Windsor não passou de patética encenação, pois com um só interessado e uma só proposta, fica evidenciado o fracasso da licitação, por falta de interessados. Seria mais apropriado, para não dizer mais honesto, se as autoridades, deixando de lado a fixação na propaganda de cunho eleitoreiro, ufanista e vazia, anunciasse simplesmente que, na ausência de competidores, estava adjudicando a exploração do Campo de Libra ao único consórcio interessado, constituído pela Petrobras, Shell, Total e as estatais chinesas CNPC e CNOOC. Estaria assim anunciando aos brasileiros apenas a verdade dos fatos, sem pretender, a custa de propaganda paga pelo erário, convencer as pessoas que os projetos gestados e paridos pelo governo são, por definição, um sucesso em si mesmos, malgrado a realidade que, alheia ao discurso oficial, se mostra luminosa e cristalina ? não houve leilão.