Opinião
O LEITOR SOLIT�RIO
O sol está apenas delineando o horizonte e afastando as sombras da noite. Mas na alvorada da orla da Pajuçara e da Ponta Verde os sanhaços já cantam nos coqueiros, os bem-te-vis pegam insetos em voos agudos e as calçadas estão ocupadas por uma fauna diversificada: senhoras em grupo debatem o último capítulo da novela e detonam os enjoados maridos. Os homens, na maioria também em grupo, sempre pilheriam, se vangloriam e blefam: ali, nem os octogenários precisam de Viagra para auxiliar suas performances. Quando passa uma menina gostosa, deslumbrante numa malha insinuante, viram a cabeça, lambem os beiços, babam a camiseta e alardeiam ?ela deu bola pra mim!? e nem reconhecem que é a neta do velho amigo. Alguns são corredores e caminhantes sozinhos: fones ao ouvido, parecem isolados da azáfama matinal. Mas nenhum é tão insular, tão distante de todos e de tudo, quanto o leitor solitário: diariamente, ele caminha sozinho um longo percurso, sempre lendo um livro que o guia; nunca tropeça; nunca desvia um segundo a atenção da página marcada. Absorto, parece muito mais distante do que as alvas espumas, que no horizonte se espraiam sobre os arrecifes. Alberto Manguel conta em sua obra Uma História da Leitura, que na infância, os livros lhe davam uma desculpa para a privacidade. Relata que quando estava na livraria em Buenos Aires, Jorge Luis Borges, já quase cego, chegou com a mãe de 88 anos à procura de livros que o ajudassem a estudar anglo-saxão, sua última paixão, no que foi repreendido pela mãe ?Oh, Georgie, não perca tempo com o anglo-saxão, vá estudar algo útil como latim ou grego!?. Manguel passou a ler para Borges, cuja preferência era Joyce, Kipling e As Mil e Uma Noites. Relata que ao ler as obras em voz alta, elas adquiriam um novo significado. Pareciam enriquecidas de quando as lera silenciosamente: sentia diferentes emoções. Santo Agostinho, relata em suas Confissões, que ler em voz alta era a forma adequada. Séculos antes de Agostinho, as tabuletas sumérias destinavam-se a ser lidas em voz alta: a frase clássica scripta manent, verba volant, ?a escrita fica, as palavras voam?, o estimulava. Lê-los em voz alta ou silenciosamente, os livros serão amigos fiéis, sempre a nossa disposição. Que mesmo os sanhaços cantando, os bem-te-vis voando, as alvas espumas se espraiando no horizonte, continuarão a nos encantar. Parabéns ao Carlito Lima pela Flimar e à Ufal pela Bienal do Livro.