Opinião
VENCENDO A PREGUI�A
Sábado e domingo, depois de umas taças de vinho e do almoço com a família, uma preguiça gostosa domina o corpo. O mar e as jangadas da Pajuçara contribuem com sua parte e vem o relax, não dá vontade de fazer nada, no máximo um filmezinho leve e um licor para auxiliar a digestão. Mas no sábado passado, superei-me: fui para a Bienal do Livro. A meta inicial era escutar o Cristovão Tezza. Ele começou a conferência perguntando ?O que move uma pessoa a escrever? O que justifica deixar as outras coisas para escrever??. Ele mesmo respondeu: ?A infelicidade, a inquietação que precisa ter uma válvula de escape?. Voltei no domingo à tarde, momento supremo de consagração à preguiça. Fui ver a Isvânia Marques e o lançamento de seu livro Para ti, Graciliano. Ela, entre tantos registros, relatou que Graça, prefeito de Palmeira dos Índios, construiu o primeiro sanitário público municipal e mandou prender um vereador que fez na rua. Multou o próprio pai por uma falta menor: Graça era rigoroso e incorruptível, sem paralelo no meio político. Ex-professora, Enaura Quixabeira, em brilhante conferência, apresentou o outro lado de Graciliano: dissecando dois de seus contos, Luciana e Minsk, mostrou-o terno, dócil, afetivo e, paralelamente, destrinchou as penumbras da alma humana, em esmerada incursão freudiana. Sempre que pude, ao sair da Santa Casa ao final do expediente, passei na Bienal. Vi Frei Beto afirmar ser mais importante a espiritualidade que a religião e outras palestras da prata da casa, como a do estudioso Radjalma Cavalcante. Gostaria de ter visto mais, contudo, o tempo impediu. Lamentei o horário estabelecido para o excelente Milton Hatoum, autor do ótimo Dois Irmãos, e da coletânea de crônicas Um solitário à espreita, que estou lendo agora. Precisaria almoçar apressadamente antes ou se ficasse para almoçar depois, certamente a fome inviabilizaria os debates, tão importantes quanto às palestras. Ressaltem-se os estandes da Cepal e do Arquivo Público Estadual, expondo obras históricas. Adultos e crianças abarrotaram a Bienal, garantindo o futuro dos livros. Pedrinho, meu neto, esteve lá várias vezes. E antes que esqueça: na conclusão, Tezza disse ser a infelicidade, a angústia e a insatisfação, o que movem e incitam o escritor, mas depois seu labor lhe traz gratificação: desafogo e felicidade. Está de parabéns a Ufal. Que venham outras!