Opinião
BIOGRAFIAS MANCHADAS
Roberto Carlos fez escola. Agora, também Chico, Caetano, Milton Nascimento, Gilberto Gil e até o nosso Djavan se juntaram para defender a censura a todas as biografias não autorizadas. Os antigos arautos do combate à ditadura, com suas canções de protesto tantas vezes censuradas, se tornaram inimigos da livre circulação de conteúdo. Eis um bom exemplo de por que, muitas vezes, tão glorificados são os artistas que morrem jovens. Envelhecer pode ser uma cilada. Eles alegam que esses livros atentam contra o direito à privacidade. Um argumento no mínimo suspeito. Não me recordo de nenhuma campanha contra as revistas de fofoca. Suas reais motivações ficam mais claras quando dizem que é ?injusto que autores e editores lucrem com os livros enquanto o biografado não ganha nada?. Se prevalecesse esse raciocínio distorcido de que os lucros de uma obra artística pertencem ao inspirador desta, e não ao seu criador, seria o caso de Chico Buarque devolver tudo que ganhou com músicas como Apesar de você para os descendentes do general Médici. Disseram também que ?se alguém quiser escrever e jogar na internet sem lucrar, não somos contra?. Engraçado; os músicos não costumavam ser assim tão amigos da internet. Tentaram até criar uma lei que tornava crime o ato de baixar arquivos. Uma boa biografia exige anos de pesquisa e trabalho árduos. Cultura de qualidade só se sustenta com financiamento. Que autores e editores lucrem no mercado, me parece melhor do que pedir 600 mil reais em dinheiro público para ler alguns poemas num blog, como fez certa vez a irmã de um dos integrantes do grupo. Durante décadas, essa turma tentou superar a qualidade da música de seus predecessores, Tom e Vinicius, e, aparentemente, também na capacidade de aproveitar uma boa oportunidade para ficar calado, o maestro era soberano. Em breve, o grupo irá ao Supremo protestar contra o projeto de lei que tenta acabar com a última censura que restou no Brasil após os anos de chumbo. Para um bando de senhores que há muito tempo não compõem um sucesso e que decidiram, agora, renegar todo seu passado por alguns royalties de biografias chapa branca, o único projeto de lei que os poderia beneficiar seria um a garantir que, ao serem publicadas, suas biografias nunca avancem além da década de oitenta.