Opinião
Gasolina sobre as brasas na Terra Santa
No momento onde a retomada do tom civilizado entre negociadores de Teerã e Washington reacende as combalidas esperanças de paz no Oriente Médio, cai como querosene sobre brasas a divulgação de um relatório médico-legal de cientistas suíços dando conta que os restos mortais do líder palestino Yasser Arafat cintilaram 18 vezes mais substância radioativa que o normal. Embora as pesquisas suíças ainda estejam em andamento e apesar do resultado divulgado de abster de afirmar conclusivamente que a enorme e anormal concentração de polônio-210 e partes exumadas do corpo do fundador da OLP e do Estado Palestino teria sido a causa mortis, o clima ficou extremamente pesado, afinal a suspeita de envenenamento de Arafat era voz corrente em todo o mundo. Além das evidências sobre as estranhas condições da morte de Arafat apontarem para causas não naturais desde ainda quando de sua agonia (rápida e implacável), são públicos e notórios os antecedentes do uso de substâncias radioativas em assassinatos políticos, sendo o mais famoso caso a morte do ex-espião russo Alexander Litvinenko, envenenado em 2006, em Londres, após beber chá contaminado com a mesma substância, o polônio-210. O ex-agente e desertor da KGB morreu também muito rapidamente depois do aparecimento dos primeiros sintomas. A situação se complica ainda mais em função da notória desenvoltura dos serviços secretos de Israel, frequentemente envolvidos em ações letais fora de seu território. Naturalmente que é muito cedo para acusações peremptórias, mas é inegável que o andar da carruagem aponta para vias ainda mais tortuosas e trágicas, em decorrência dos ressentimentos sempre à flor da pele na chamada Terra Santa e seus arredores. Infelizmente, a cada nova notícia alvissareira espocam outras novidades em sentido contrário. E a sonhada paz continua sendo martirizada e crucificada no gólgota da intolerância e dos ódios milenares. Desgraçadamente, de novo mesmo, apenas as substâncias e os instrumentos de matar se proliferam no Oriente Médio, arrastando o resto do mundo, morte após morte, para mais distante da paz sonhada.