Opinião
Brutalidade contra a pesquisa cient�fica
Dificilmente será encontrado um movimento social que não cometa erros, que não tenha falhas em seu rol de políticas e procedimentos. Não poderia ser diferente em relação aos sem-terra ? mas os companheiros das várias siglas ST estão abusando da prerrogativa de pisar na bola. O acontecido nos laboratórios do Centro de Ciências Agrárias (Ceca) é algo além de um condenável gesto de selvageria. Trata-se, ao que tudo indica, de um erro grosseiro de concepção. Desenha-se ali uma visão retrógrada sobre a ciência e a tecnologia, redundando numa aplicação enviesada das insustentáveis crenças do radicalismo naturalista. Foram destruídas no Ceca experimentos de ponta, dentre outras culturas, sobre variedades da cana-de-açúcar. Movidas pelo mais puro preconceito, as ideologias sem rumo confundem a estrutura social construída em torno de uma cultura agrícola com a própria cultura. E o vegetal, inocente de tudo, paga o pato. Mas em se desconsiderando a estultice de condenar a cana-de-açúcar, é impossível aceitar a violência, a desconsideração, a agressão a anos de esforços de centenas de trabalhadores dedicados a uma das mais meritórias atividades humanas: pesquisar. Professores universitários, técnicos de todos os níveis, estudantes e ? principalmente ? o conhecimento são as vítimas diretas da brutalidade desencadeada contra o centro de pesquisas agronômicas da Ufal. A demonização da tecnologia tem se manifestado como uma tendência obscurantista globalizada, cujas formas destrutivas foram trazidas para o Brasil por ONGs conservadoras, direitistas, praticantes do chamado ?terrorismo verde?. O mito do pecado mortal da modificação genética espalha a ignorância simplória de desconhecer que praticamente todas as culturas agrícolas, há séculos, se baseiam em sementes geneticamente alteradas, de forma artesanal, desde tempos ancestrais. Esquecem-se que a manipulação genética ganhou status de ciência, no Ocidente, desde que Mendel, nos idos de 1840, passou a sistematizar e escrever sobre os experimentos com cruzamento de vegetais. Ser contra a pesquisa a ponto de destruir anos de trabalho científico é algo além de uma ação criminosa localizada, trata-se de um perigoso desvio conservador que põe em risco o direito inalienável do conhecimento, do progresso humano.