Opinião
VIOL�NCIA, PARA AL�M DO SANGUE CRU
Duas obras tentam abordar e entender alguns aspectos da violência em Alagoas. Uma violência também simbólica ? não contém o sangue ou a morte, mas os estragos psicológicos talvez pudessem merecer mais estudos (e livros) sobre o assunto. A funcionária pública Ana Cláudia Laurindo aborda o tema em dois livros ? lançados na Bienal ?, aparentemente diferentes: Bastidores da Violência e dos Violentos em Alagoas e Construção da Alma Alagoana, de Graciliano aos nossos dias. O violento nem sempre está no local do crime. Mas, seus gestos ecoam nos lugares, repassam como uma corrente aos cidadãos, esparramam-se na nossa sociedade. A bala mata o garoto, mirada por outro garoto ou um adulto vivenciado no crime, em Bastidores. O menino Graciliano amargura o desprezo do pai, da mãe, da escola (aprende a ler na adolescência), não se permite o entusiasmo em Viçosa, emburrece-se ante o letramento, o gênio que no futuro ganhará um lugar especial na literatura do mundo, na abordagem de Construção. A escola é tão violenta quanto o lado de fora. O quadro negro sustentado por cadeiras, a água com bolacha na merenda, as paredes do pátio mofadas ou (quando não) rachadas. A quem observa os dados do Enem (escolas privadas pareadas nos primeiros lugares), é uma quase humilhação abordar recursos inexistentes no dia a dia das públicas. O tablet parece brigar com o giz. Mas, tanto as escolas privadas quanto as públicas são niveladas pela violência.Destratam e destratam-se tanto quanto os muros, ali artificiais. O mundo de Alagoas contamina os espaços dos nossos meninos faz tempo. Quase incomum a abordagem sobre a violência. Preferem-se ainda as praias, as roupas coloridas, os prazeres da carne. Mas, Alagoas tem nas suas entranhas uma sociedade que exclui, analfabetiza, decide quem vira médico e segue ao cemitério, quase sem cortejo ? por certo um luxo reservado aos heróis cultuados num céu de estrelas sem importância. Quando decidimos quem vive ou quem morre, escutamos os sons da eugenia ? aquela decidindo tudo em meio ao nada. A violência transforma profundamente o nosso mundo. Mesmo quando não reconhecida pela nossa desordem.