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Opinião

REBELDE BOEMIA

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Os tipos humanos, em suas características e estilos, revelam seu mundo pessoal e o enredo de suas vidas. Ferreirinha, funcionário público aposentado, atual morador do bairro da Ponta Verde, possui uma trajetória humilde, de capítulos marcantes. Antigo habitante do bairro da Ponta Grossa, assíduo frequentador dos botecos daquela região, se tornou conhecido por sua vocação à boemia. Na repartição pública onde trabalhou, era muito estimado pelo seu gênio amável e forma atenciosa como atendia às solicitações de seus superiores. No ambiente de trabalho, veio a conhecer a eleita do seu coração. Ambos possuíam o desejo de se unir a alguém para vencer a solidão e tornar menos incertos os dias do futuro. Os colegas de repartição torceram por essa união e acreditaram que o casamento poderia tornar Ferreirinha um cidadão menos boêmio e mais familiar. A nova vida de casado ganhou apenas uma pausa em suas noites errantes. Logo voltou à boemia, arraigada em sua alma boa mas sensível às sugestões dos botecos. Mas, um fato novo serviu para redirecionar sua vida. A morte de sua sogra fez sua esposa herdeira de um imóvel, que mudaria os rumos do casal. Aconselhados pelos companheiros de repartição, venderam o aludido bem e adquiriram um pequeno apartamento, de construção antiga, no bairro da Ponta Verde. Ferreirinha precisava mudar de ambiente na busca de uma sonhada recuperação. Afinal de contas, como dizia o velho Eça de Queiroz, ?é o coração que faz o caráter?. Em sua nova vida, não tardou a descobrir os bares da região e a fazer companheiros mais instruídos. Passou a adotar um discurso contestador em seus devaneios. Ao voltar para casa, no fim das tardes, chuta todos os sacos de lixo das calçadas, desafiando uma imaginária burguesia. Se tornou um boêmio rebelde, de linguagem política e inquieta. A zona nobre teria de aceitar sua presença popular, defensora das causas dos humildes. Suas palavras chamam a atenção dos transeuntes. Apesar dos gestos bruscos e radicais, passam a observá-lo pelas denúncias contra as deficiências existentes no bairro, que clamam pelas providências das autoridades públicas. No alegre bar frequentado por Ferreirinha, escreveram uma sentença definitiva na parede: ?Os boêmios são artistas sem fortuna. Sem eles, não existe revolução?.

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