Opinião
GUERRA DE DIREITOS
Black blocks incendeiam viaturas e agridem policiais. Sem-terra invadem prédios públicos, destroem pesquisas científicas, bloqueiam ruas. Por que as autoridades não fazem nada? A história registra inúmeras reações desastrosas de agentes públicos a atos de desordem civil. Na Inglaterra, a tentativa de impor ordem em um estádio de futebol superlotado provocou a morte de centenas de torcedores. No Brasil, a desocupação de uma fazenda em Eldorado dos Carajás, chacinou dezenas de trabalhadores sem-terra. Para cada uma dessas tragédias se seguiu uma inevitável indignação social contra as rotinas policiais opressivas. Como o prejuízo político dessas reações é muito maior que o decorrente das ações que as motivam, as autoridades desenvolvem um tipo de medo sistêmico, gerando um estado agudo de paralisia do Estado. Acontece da seguinte forma: logo após a tragédia, o governante afirma que a polícia, agora em diante, atuará com a força perfeitamente adequada para cada situação. Depois, sabendo que sua tropa é mal paga e mal preparada, ele abre mão do monopólio da força. Da tragédia do estádio inglês, nasceu o hooliganismo. Eldorado dos Carajás gerou um movimento social intocável. A reação exagerada da polícia paulista as passeatas de junho, ferindo repórteres e inocentes, deu passe livre para os black blocks. A imobilidade do Estado chegou ao cúmulo com a Avenida Paulista sendo interditada por um grupo de menos de 30 pessoas. A Inglaterra resolveu seu problema com os hooligans da única forma possível, entendendo que para garantir o direito coletivo, alguns direitos individuais não valem quando exprimidos em grupos suspeitos. O Brasil não entendeu. Os torcedores continuam se matando em nossos estádios. A única forma de combater os black blocks é proibir que usem máscaras quando reunidos em situações de risco. Seu direito de cobrir o rosto, quando sozinhos, continuará garantido. Se não é possível controlar os trabalhadores sem-terra quando reunidos, então que sejam impedidos de, em grupo, entrar em propriedades públicas e privadas. Tenho certeza que a Ufal terá o maior prazer em recebê-los individualmente, sempre que quiserem. Não há outra saída: ou entendemos isso ou a liberdade de alguns poucos grupos continuará cerceando a liberdade de uma multidão de indivíduos.