Opinião
A ESPERAN�A DA TRISTEZA
O tempo passa célere. Já se vão quase três anos quando, neste espaço, lamentei a triste situação em que se encontrava o nosso velho e saudoso Alagoinha. Enquanto comia um acarajé do Caubi, presenciei vários jovens entrar e sair, outros a esperar por algo que poderia sair daqueles escombros. Evidente que se tratava do tráfico e consumo de drogas. Animei-me, pouco tempo depois, com a notícia de que ali seria construído algo a serviço do turismo, o que foi confirmado com a aposição de uma gigantesca placa onde se lê: ?Marco referencial para o turismo. Mais que um ponto turístico, um lugar especial para o alagoano?. Porém, lá estão, ainda, a placa e os restos mortais do velho clube. Pior, com o tempo, a ?Boca do Luxo?, como chamei à época, está cada dia mais ativa e faminta. Outro dia, em tarde ensolarada, encontrava-me no mesmo local saboreando um bolinho, quando uma jovem, acompanhada por uma garota de no máximo dez anos, adentrou os escombros e desapareceu por alguns minutos. Confesso que fiquei apreensivo. Quando as revi, vinham faceiras e a jovem ajeitando uma bolsa à tiracolo. O caminho de volta dá-se pela orla onde deverá encontrar seus clientes mais abastados que não querem adquirir na fonte o produto. A garotinha serve de camuflagem para despistar suspeitas. Tenho visto nas redes sociais críticas e elogios sobre a construção do Marco Referencial. Uns acham um monstrengo à beira-mar, enquanto outros aplaudem pela beleza. Sinceramente, não entro nessa discussão. No meu ponto de vista, é preciso que se faça alguma coisa: ou aproveita-se o que ali está para algo útil, ou demole-se. E aí vem a pergunta: qual o motivo da demora para o início da obra? Sabemos que não será a ocupação do Alagoinha que vai extinguir a criminalidade na parte baixa da cidade. Mas é mais um foco a ser suprimido. Com uma sucursal do tráfico no ponto mais charmoso de nossas praias, os intermediários não precisam ir aos locais mais afastados ou às bocas da periferia. Rogamos para que não estejam esperando a licença dos chefes do tráfico para iniciarem as obras. É uma imensa tristeza assistir à leniência imperando em detrimento de nossa segurança e do aproveitamento da beleza local. Como disse, é muito triste. Mas no centenário do Poetinha, vale lembrar que ?a tristeza tem sempre uma esperança de um dia não ser mais triste, não?.