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Opinião

Provoca��es cotidianas contra a democracia

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Protestar é um direito democrático que custou muito caro à cidadania brasileira. Mesmo depois de findo o regime militar, o processo de ajustes nesse campo foi longo e tortuoso, pontilhado de acontecimentos trágicos como o tristemente famoso Eldorado dos Carajás. Como a história registra, aquela tragédia se deu no dia 17 de abril de 1996, quando numa intervenção desastrosa destinada a desobstruir a BR-155, a Polícia Militar do Estado do Pará entrou em confronto com militantes do MST e matou 19 manifestantes. O escândalo internacional causou grande desgaste ao governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, apesar de, nacionalmente, a mídia amiga e outras amizades poderosas terem feito recair toda a responsabilidade apenas sobre os policiais militares paraenses. Protestar, portanto, é um direito que não caiu do céu por descuido. Essa conquista democrática, porém, precisa ser devidamente respeitada por quem queira fazer uso dela. Infelizmente, isto não está acontecendo. Num crescendo de perigosas consequências, as manifestações têm sido marcadas pelo desrespeito dos manifestantes aos direitos dos demais cidadãos. Frequentemente, os protestos investem contra a população indefesa, tornada alvo fácil pela leniência ou falta de competência das forças policiais em defender os direitos das pessoas alheias a esses movimentos. Esta é uma característica nacional que pode ser observada também em Alagoas. Por qualquer motivo, toca-se fogo em pneus ou quaisquer outros materiais com o fito de interromper o trânsito em áreas particularmente nevrálgicas para o tráfego. Com esses atos, são duramente prejudicados os trabalhadores e toda a população que precisa se deslocar em ônibus superlotados e, usualmente, com pouco ou nenhum tempo disponível para perder nas ruas. Vítimas de engarrafamentos monstruosos, como o provocado ontem nas imediações da Praça Sinimbu, essas pessoas não têm a quem apelar. A polícia, simplesmente, se ausenta, talvez temerosa de cair em provocações de quem deseje um novo Eldorado dos Carajás, talvez ciente do próprio despreparo em enfrentar os problemas reais da segurança pública. De uma forma ou de outra, o resultado é um só: o esgarçamento do tecido democrático através do incentivo aberto ao uso da força bruta.

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