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Opinião

SONHOS E DORES

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A eleição (e a posse) do poeta Jucá Santos para uma cadeira na Academia Alagoana de Letras resgata uma dívida moral. Com efeito, o eterno presidente da Academia Maceioense de Letras era uma ausência doída na vetusta AAL, uma lacuna que precisava ser preenchida urgentemente. Repito o que alguém disse aos pares, em informal cabala de adesões: ?Os velhos têm pressa?. De fato, chega-se a determinados estágios em que praticamente nada pode ser adiado para o dia seguinte. Aos oitenta anos, não há pospores... Não fora a liturgia do cerimonial, não obstante o inflamado discurso de Ricardo Nogueira, que, em nome da Academia, deu as boas-vindas ao empossado, Jucá Santos tem tanta e tamanha visibilidade no meio cultural da Província que dispensaria a formalidade da apresentação. Dispenso-me gastar o meu enferrujado latim para dizer que Jucá tem uma respeitável obra literária. ?Produto? resultante da mistura de um poeta com uma pianista, trazendo no genoma a imorredoura marca do consagrado avô Cipriano. Está assim explicada a força criativa dessa conspícua figura que há tantos anos passeia e encanta as musas. Quis o destino que no exato dia em que Jucá Santos concretizava o sonho de adentrar-se triunfalmente no oratório literário da Praça Deodoro, uma outra figura despedi-a-se da vida deixando um legado de coragem e determinação. Falo de Nelson Mandela. Em rápidas pinceladas foi traçado o perfil do grande líder, um exemplo para os que se arvoram de líderes e não passam de grandes picaretas. Presidente do seu país com quase 80 anos, após vinte e sete anos confinado num cubículo de cinco metros quadrados, apesar de comunista, Mandela recusou-se sentar na cadeira presidencial eternamente. O recado foi claro: há prisões em que o sujeito sai maior. O outro é que mesmo comunista o cara pode não sonhar em partido único, jornal único e pensamento único. Exemplos que deveriam inspirar Genoino, Zé Dirceu e companheirada. Condenado à prisão perpétua, era um comuna que respeitava adversários, que costurou o fim do apartheid com um adversário ferrenho, branco e rancoroso, cinco anos antes de livrar-se das algemas. Feridas da alma (e na augusta fronte) certamente o grande líder as sepultou. Sua digna esposa, recalcitrante, ao chifrar o nosso herói, não tenham dúvidas, magoou o mundo. Sobretudo o masculino. Não há sonhos sem dor.

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