Opinião
Quando aflora a for�a das ra�zes
Hoje é dia de festa do mar. Neste domingo, manifesta-se a única cerimônia religiosa afro-brasileira aberta ao público em Alagoas. Todas as outras datas sagradas para os cultos de raiz africana são festejadas apenas para e entre os devotos, nas áreas privadas dos terreiros espalhados por todo o estado. A semiclandestinidade das celebrações herdadas da negra África em solo alagoano tem raízes profundas e doridas, regadas a sangue de pais e mães de santo vitimados por ondas de violência e intolerância que podem ter origem na repressão ao Quilombo dos Palmares, mas que são marcadas indelevelmente por barbaridades bem mais recentes, cometidas a partir de 1912. Por um bom tempo, até o fatídico 1912, os cultos afro-brasileiros viveram momentos de sua maior glória e poder em Alagoas contando com seguidores e simpatizantes entre as camadas mais poderosas do estado, dentre os quais se destacava o então governador Euclydes Malta. Quando o século 20 completou sua primeira dúzia de anos, a campanha contra os Malta alcançou seu momento de maior agressividade, culminando com a deposição do governador em meio a uma onda de violências. Aliados do governador derrubado, os terreiros foram violentados como forma de ?cortar os laços? entre o povão e as lideranças caídas. Pais e mães de santo foram alvos de especial voracidade, surrados e assassinados, e os pejis (santuários) profanados e saqueados. Tamanho horror, compreensivelmente, provocou a necessidade do culto se esconder, se proteger. Mas o dia 8 de dezembro foi preservado à luz do dia e nesta data, todos os anos, levas de praticantes expõem-se sem medo e ocupam a orla do mar de Maceió, polvilhando as praias com a música, as danças, os transes e as oferendas à divindade marítima conhecida como Iemanjá, tida como feminina (representada com tez branca, vestida em europeus trajes diáfanos) e resguardada sob o manto azul de Nossa Senhora da Conceição. Hoje é um dia único no calendário das religiões praticadas em Alagoas ? o momento singular no qual os cultos afro-brasileiros apresentam sua alagoana face, tão sofrida como forte e alegre.