Opinião
RISCO GENOINO
Nos discursos apoteóticos do ministro Joaquim Barbosa, o esquema do mensalão afrontava os próprios alicerces do sistema democrático. Balela. Se não fosse descoberto, tudo continuaria como sempre foi, afinal, a democracia não acabou com a reeleição do ex-presidente FHC. Uma eventual absolvição de José Dirceu, João Paulo Cunha ou Delúbio Soares não traria nenhum risco à viabilidade do Estado. Mas dentre os ilícitos investigados, existia um que, se não declarado fraudulento, ameaçaria o futuro da nação. Com o perdão do trocadilho, existia, sim, nesse processo, um risco genuíno ao funcionamento da Justiça e do País. José Genoino foi condenado por receber empréstimo cujo montante somava várias vezes seu patrimônio pessoal. Não bastasse a realização impossível para qualquer mortal, o saldo nunca foi cobrado pelo banco. Só depois de descoberto o esquema, o empréstimo foi pago, por terceiros. Em nota emitida no momento de sua prisão, Genoino afirma que é inocente, pois o empréstimo foi registrado e pago. Se assim chancelasse o tribunal, o Brasil entraria no período mais negro de sua história. Imagine que você é um grande empresário querendo corromper alguém; bastaria pedir a um amigo banqueiro (se banqueiro você já não fosse) para fazer-lhe um empréstimo e ?esquecer? de cobrar. Se o esquema fosse descoberto, bastaria alguém pagá-lo a posteriori. Na remota possibilidade do corrupto se encontrar sem dinheiro e sem amigos, o próprio banqueiro, para se safar, arrumaria o dinheiro. Simples assim. De repente, toda aquela coisa chata de lavar dinheiro e emitir notas frias, seria desnecessária. O futuro seria de sossego para os corruptores. Se o STF não condenasse Genoino, o Brasil viraria uma gigantesca Ilhas Cayman. Os outros réus do mensalão andam em caminhonetes importadas e passam férias em resorts. Apesar da proximidade com o poder, Genoino nunca enriqueceu. Constatar que ele nunca usufruiu de eventuais movimentações suspeitas foi uma das poucas unanimidades sobre o caso, até a revista Veja consentiu. Para um petista, ser elogiado pela Veja vale mais que apelar para a Corte Interamericana de Direitos Humanos. Se um de todos os réus do mensalão devia ter sido inocentado, esse era José Genoino. Se de todos os acusados, um não podia ser absolvido, esse era José Genoino.