Opinião
Moramos em um pa�s tropical, ou n�o?
Emblemáticas foram as imagens do novo Maracanã tomado pelas velhas chuvas de verão. Como mais uma mensagem de alerta, o mais famoso estádio brasileiro, ilhado, relembra a todo o País, e não apenas ao Rio de Janeiro, que vivemos em um país tropical. ?Moro num país tropical, abençoado por Deus/E bonito por natureza, mas que beleza...? cantou Jorge Ben Jor, concluindo que ?Sou Flamengo/E tenho uma nêga/Chamada Tereza?. Esqueceu, porém, de incluir um verso dizendo que onde moramos ?chove com certeza?. Mas, como à arte não pode ser cobrada fidelidade às previsões de tempo, a lembrança desta composição, gravada em 1969, tendo como primeiro intérprete Wilson Simonal, vai aqui apenas como ilustração de que as vicissitudes, e não apenas as belezas, caracterizam todo e qualquer país tropical. Chover abundantemente é certeza nos trópicos, sendo que noutros lugares as contingências do clima tropical são bem mais catastróficas, como as moções e os tsunamis asiáticos, tufões, ciclones e outras tantas manifestações indóceis da natureza tropicana das quais o Brasil está livre ? abençoado por Deus, como bem registra a canção. Mas chuvas intermitentes são características deste abençoado pedaço de mundo chamado Brasil. Convivemos com elas desde antes do chamado descobrimento, e as lendas indígenas, aqui e ali, reconhecem o fenômeno com o qual ? tudo indica ? haviam aprendido a conviver. Se as populações autóctones haviam aprendido ou não a conviver com as chuvas tropicais é certo que os habitantes pós-1500 desconsideram as lições de cinco séculos. Nós, os contemporâneos, continuamos a descrer no que vivemos a cada ano e as chuvas sempre nos pegam desprevenidos. Na manhã de ontem, já eram contabilizadas quatro mil pessoas desalojadas no Rio de Janeiro, como resultado preliminar de apenas dois dias de chuvas nem tão torrenciais quanto em vários outros verões. No inverno, novas águas cairão. E ?surpreenderão? a todos, especialmente as autoridades, que ?sem esperar? por tal fato, não terão implantado medidas preventivas óbvias. E novas verbas de emergência serão liberadas em cascata, alagando cofres públicos e privados. E nos próximos verões e nos próximos invernos, essas mesmas cenas se repetirão.