Opinião
UNINDO O C�U � TERRA
Uma tarde quente de sábado no Teatro Gustavo Leite lotado. Nem o calor nem a balbúrdia na plateia fizeram com que um só dos espectadores o deixasse, onde Eliana Cavalcanti apresentava o espetáculo Em Tempo de Esmeralda e completava 40 anos de virtuosismo no balé. Trazendo-nos ainda remotas recordações. Trazendo-nos Milena, nossa filha mais nova, hoje médica radiologista, que na infância e adolescência, corujada por Ivanelza, era aluna aplicada e nos finais de ano nos enternecia, assim como aqueles pais que vão ver suas filhas e filhos bailarem ao som dos mestres eruditos. Trazendo-nos minha mãe, nas noites de Natal, depois do culto que promovia com a família, dos versículos da Bíblia, dos hinos, das orações e da ceia, sempre assistíamos àquelas fitas guardadas na estante, umas VHS vindas do exterior: do Bolshoi e do Kirov, de seu deleite, exaltado no terceiro ato, quando do pas de deux do Cisne Negro no Lago dos Cisnes; do Grand jeté durante Giselle e de O Quebra Nozes. De vez em quando, precisava parar para ela atender a um telefonema de um irmão saudoso das lonjuras do Amazonas, de um cunhado de São Paulo. Mas tão logo encerrava a conversa, pedia-me para repor a fita e continuar o balé. Assistia deslumbrada àquela arte que, no século 17, fez com que o rei da França, Luis XIV, ficasse conhecido como o ?Rei Sol?, por ter protagonizado, aos quinze anos, o papel de ?rei sol? no Ballet de La Nuit, em 1653, primeiro dos vinte e seis balés que dançou como primeiro bailarino em seu reinado, só parando quando começou a envelhecer. Eliana, encerrado o espetáculo, disse ser o balé a arte que une o céu à terra. O poeta Diógenes Tenório Júnior, em sua saudação à chegada de Eliana à venerável Academia Alagoana de Letras, dedicou-lhe uma poesia, iniciada assim ?Vem Eliana com seus pés alados/Braços abertos acolhendo o belo/Sorriso meigo a suscitar querências/Mãos estendidas partilhando sonhos?, e assim finalizada: ?Fica Eliana, e tudo se perfuma/Que sua presença suaviza o tempo/Num quase voo de ternura e graça/Brinde celeste em noite enluarada?. As fitas VHS da menina Milena bailando estão em alguma gaveta, esperando que algum técnico esperto as possa recuperar, mas o luminoso sorriso de minha mãe, se deliciando com o balé nas noites de Natal, esse sorriso, jamais será recuperado. É, sobretudo, uma presença viva nas nossas memórias e nos nossos corações.