Opinião
SAUDADES E EVOCA��ES
Nasci na fazenda Mata Verde, no município de Traipu, à margem do Rio São Francisco. Ali morava com minha mãe, meu irmão Rui e o tio Toinho. A poucos metros dali, o Rio São Francisco deslizava ora mansamente, ora encachoeirado e uns poucos afoitos arriscavam tomar banho à noite. Predominava o medo de piranhas (peixes vorazes) alicerçado nas muitas histórias de pessoas desaparecidas e por elas devoradas. A cidade de Traipu, nos idos de 1950, foi testemunha de minha infância alegre e feliz. Durante o dia, após as obrigações da escola, braçadas no rio em disputa de distância a serem alcançadas. Emolduravam esse cenário canoas com velas infladas, traquetes coloridos, canoas de tolda assim eram conhecidas. Esse quadro não estaria completo se não fosse citado o novenário da festa da padroeira da cidade, Nossa Senhora do Ó, durante o qual transbordava religiosidade, animado por foguetórios, zabumbas, dobrados musicais e leilões. Nessa época, a vida transcorria de maneira tranquila e as ocorrências principais dependiam essencialmente do rio: o rio comandava a vida. Canoas dominavam o transporte fluvial. Feiras e feirantes vinham embarcados, embarcados também os noivos para os casamentos. O rio era a estrada, o meio de locomoção, o comércio, fonte de renda e subsistência. São saudades e evocações. Da varanda da fazenda, situada num altiplano, divisava, num contorno do rio, uma fileira de casas coloniais e a bonita igreja de Nossa Senhora do Ó, padroeira da cidade. Volto a Traipu por dois motivos definidos. Participar da procissão da padroeira e corresponder ao convite de uma homenagem que me foi prestada. Dizia o convite recebido: ?pela minha contribuição educacional e cultural para o desenvolvimento da cidade?; foi a mim entregue pela comissão organizadora constituída pelos doutores Fernando Dias (Fernandinho), Humberto Palmeira, Valter Dias (Valtinho) e Cícero Melo, em nome dos demais membros da comissão. Uma festa inesquecível. Emocional. Homenagem que me sensibilizou, com a presença de cerca de 200 pessoas, entre as quais dona Nilce Dias, símbolo da mulher traipuense e de Lúcia; da prefeita Conceição Tavares, herdeira da tradição de bons e honestos políticos, que foram seu pai e seu avô. Agradecimentos sinceros aos meus conterrâneos e amigos. E, agora, o Natal, que espero seja para todos o repensar da vida em curso, sempre com a possibilidade de um novo sentido para a existência. Feliz Natal!