Opinião
H�RCULES-QUAS�MODO MODERNO
O sertanejo é, antes de tudo, um forte (...). Euclides da Cunha, nos momentos de folga, quando escrevia Os Sertões, descreveu Hércules-Quasímodo, o sertanejo, desgracioso, desengonçado, torto. Mas se visse a coreografia dos novos policiais mudaria de ideia, no tocante ao Hércules-Quasímodo, pois o sertanejo não é mais desengonçado, acima de tudo são fortes, não mais pela persistência de viver no sertão, mas por encontrar forças para descontração, enquanto o sertão de pedras (cidade) absorve pela violência os mais nobres heróis os policiais. O mais interessante é que a sociedade está tão acostumada com a violência desenfreada, que se tornou comum os índices de homicídios, razão pela qual procuram novo ibope numa construção moderna de descontração. Acredito que o Conselho Estadual de Segurança Pública (Conseg) tem mais com que se preocupar... Os policiais vivem momentos difíceis nesse turbilhão de violência; o estresse, já confirmado em pesquisa, é o que causa a agressão policial; se a sociedade pede mudanças de atitudes, não pode ser hipócrita a ponto de criticar uma descontração numa aula de aeróbica em que todos sabem, requer uns remelexos. Apesar de tanto modismo, de aceitação do Félix, personagem da novela das nove da Rede Globo, a questão aqui é cultural. Não podemos negar nossa constituição formada pela miscigenação de vários povos, que deixou em nossos genes o gingado dos escravos. Talvez não queiramos aceitar, nossa Casa Grande e Senzala, saboreando o xarope Coca-Cola. Acredito que se os policiais estivessem dançando a dança da roda dos índios Pataxós, não estariam cometendo desvio de conduta, mas não tenha dúvida que apareceria alguém para reivindicar os direitos autorais da dança. Não dá para agradar a todos. A descontração de nossos policiais faz lembrar a cultura dos soldados japoneses que em seus treinamentos está o cultivo e a contemplação das flores, pois antes de aprenderem a lutar, tem que saber apreciar a beleza da vida. Não é com uma simples descontração que nossos policiais deixarão de ser guerreiros, pois como canta o conterrâneo Djavan: ?apesar da roupa que visto, também sou um índio?.