Opinião
AQUELE ABRA�O E FELIZ ANO NOVO!
O relógio toca suas doze badaladas. Até então tocava na TV as músicas de Roberto Carlos, o programa de fim de ano onde o artista se apresentava. Talvez sensibilizada pela música (que canções!) me vem, neste momento, a imagem de uma menininha de tranças, em uma estação ferroviária entre o barulho dos carregadores de malas, o resfolegar e o apito do trem que chega e o cheiro da fumaça que emana das caldeiras. É uma tarde sombria, quente, como todas que precedem tempestades, as nuvens escuras no céu, um cenário que parecia se solidarizar com a dor da mulher que usava um vestido preto que ressaltava sua face pálida e triste, e que estava ao meu lado. Era minha mãe. Estávamos em 1953 e voltávamos de Santana do Ipanema, terra árida, onde vivia meu avô, bravo sertanejo que havia falecido. Não posso esquecer, jamais, a cena do meu pai abraçando minha mãe, que chorava copiosamente. Desde então, ?o abraço? para mim tornou-se o maior ato de amor entre os seres humanos. O abraço ao bebê que chora, o abraço da gratidão, o abraço fraterno, o da amizade, o do perdão e, o maior de todos, o do amor. Aquele que é dado pelos que se amam de verdade. O abraço dos amantes, que muitas vezes diz mais que mil frases ?eu te amo?. É deste abraço quente, apertado, dado de todo o coração, quando não existem dois, mas a fusão de sentimentos, tornando um único ser, que se sente falta pela ausência do amado que partiu. Nas noites de solidão, nas festas, nas solenidades e também nas tristezas quando se faz necessário este gesto de carinho é que vemos o quanto vale este ato tão simples de nome tão complicado, ?amplexo?. Em Viena, visitei o Österreichische Museum onde se expõe a obra de Gustav Klimt, O Abraço e fiquei extasiada, emocionada com o que o autor nos passa. Dois seres apaixonados que se fundem em um só, como se o finito se entrelaçasse sobre si mesmo, com toda sua força formando o infinito, uma paz interior mesclada com emoções vulcânicas dos personagens, sentimentos humanos que os tornam únicos e divinos. O abraço nos torna semelhantes às divindades, puras sensações paradisíacas que apenas nós, seres humanos, somos capazes de sentir. Para todos os leitores, ?Aquele Abraço? e um feliz ano novo!