Opinião
Quando a imund�cie abjeta se banaliza
Nada como uma boa polêmica para atiçar causas sob o risco da banalização. Às vezes basta um olhar ?estrangeiro? para identificar absurdos que, de tão vistos pelos nativos a estes parece coisa vencida, batalha perdida. Este é o caso da malfadadas ?línguas negras?, cujo nome deveria ser, no mínimo, ?línguas de esgoto?. Esses córregos de fezes e outros dejetos que teimam em poluir as fantásticas praias alagoanas se multiplicam em função da densidade urbana. Quanto mais residências perto da praia mais e maiores ?línguas podres? serpenteiam, impunes, pela alvura das areias. Depois de tantas e tantas reclamações caídas no vazio, parecia ter a população perdido a voz. Bastou um ator, visitando Maceió, perceber essa ignomínia. E num feliz clique, registrou três jovens, sorvendo água de coco, displicentemente sentados à beira de uma fossa a céu aberto. E postou a imagem numa rede social, deflagrando um bate-boca danado, dividindo os compartilhantes em ?do contra? e ?a favor? da postagem original. Poucos comentários, porém, abordaram a questão como ela é: mera comprovação da incapacidade do poder público combater os vícios da incivilidade. Não é de hoje que todos sabem o que são as tais ?línguas podres?: esgoto residencial irregularmente ligado à rede de esgotamento pluvial. Essa gambiarra é feita para não pagar a taxa de saneamento da Casal; e daí fezes, urina e demais dejetos domésticos são jogados, in natura, nos dutos coletores de água da chuva e estes, por sua vez, candidamente despejam-se nas praias. Simples assim. Verdade é que os órgãos públicos tentam, há décadas, combater essa prática criminosa em Maceió. Localizar os responsáveis por esse tipo de malfeito não é difícil, mas as medidas de enfrentamento esbarram na burocracia e em visões equivocadas dos direitos legais da cidadania e do indivíduo, o que, em resumo, castraram a principal (senão única) ação inibidora dessa contravenção: o tamponamento das ligações infratoras. O pior é que a população e os poderes públicos foram se acostumando a absurdo tão vergonhoso. Quem sabe, o opróbrio causado pela postagem de uma simples foto na internet possa fazer as autoridades locais caírem em si e irem além de uma limpezinha de ocasião.