Opinião
O DIA EM QUE ME IA AFOGANDO
O mar sempre me atraiu por sua beleza, por seu ondular constante, por seu mistério, por sua força, pelo bem-estar que o frescor das águas nos proporciona quando nele penetramos para um banho. Porém, às vezes, afugenta-me, quando o vejo enfurecido a se jogar contra os rochedos, invadindo com violência as areias da praia. Nunca aprendi a nadar. Apenas dava algumas braçadas, mergulhadas. Mas era ousada e algumas vezes me aventurava a me afastar até não tomar mais pé. Isto o fiz várias vezes sem medo. Morava na Avenida da Paz. O mar sempre foi violento. Antes de mudarem o Riacho Salgadinho do Sobral para o local em que fica hoje, era assim. Triste ideia de um prefeito fazer tal estrago. Depois que começou a percorrer os bairros centrais e desaguar no meio da Avenida da Paz, tornou-se um depósito de lixo, que, além de transformar sua foz num lugar de insuportável sujeira, roubou a brancura reluzente das areias e tornou a praia inutilizada pela poluição. No tempo em que morei na Praça Sinimbu, ele ainda desaguava na Praia do Sobral, então era um mar gostoso de mergulhar em suas ondas e o banho se tornava um grande prazer. Perigoso, mas atraente. Fui sua frequentadora assídua, e levava sempre meus filhos, que brincavam na beira-mar e se distraíam fazendo castelos com aquelas areias tão alvas. Numa dessas manhãs de verão em que o mar fica mais azul e brilhante, quando o céu se descarta das nuvens e nos encanta com aquela abóboda límpida e refulgente, e o verde das árvores se intensifica e se destaca na limpidez da atmosfera, mergulhei corajosamente nas águas cristalinas e, sem sentir, boiando, fui sendo arrastada pela corrente para longe da praia. Quando procurei o apoio do fundo do mar, não tomava pé! Apavorei-me e procurei dar as braçadas que podia em direção à praia. Naquele instante, já exausta, certa de que iria me afogar, minha vida passou como um filme pelo meu pensamento, como uma rápida despedida. Ergui o corpo procurando o apoio do solo, mas ainda não dava. Já não tinha mais forças para novas braçadas. Senti-me perdida. Mas, de repente, veio uma forte onda que me empurrou para a praia. Arrastei-me com as forças que me restavam e estirei-me na areia quase sem fôlego, dominada pelo cansaço. Só depois de algum tempo consegui me levantar. Olhei para os meus filhos, ainda tão pequeninos, tão precisados de mim, e levantei as mãos para os céus, agradecendo a Deus por me ter dado mais essa chance de vida!