Opinião
ROQUETTE PINTO E O R�DIO NO BRASIL
Não é preciso ser naturalista para perceber que há algo em comum entre as espécies Endodermophyton Roquettei (parasito da pele), Alsophila Roquettei (planta), Roquettia Singularis (aranha), Phyloscartes Roquettei (pássaro da região central do Brasil) e Agria Claudia Roquettei (borboleta). Nestes casos, os nomes escolhidos homenageiam o cientista fluminense Edgard Roquette-Pinto (1884-1954). O homenageado foi médico-legista ? formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro ?, antropólogo e etnólogo. Também foi professor e, como tal, lecionou Antropologia no Museu Nacional, História Natural na Escola Normal do Distrito Federal e Fisiologia na Universidade Nacional do Paraguai. Como antropólogo, integrou a epopeica missão Rondon, em 1912, percorrendo os recônditos do Brasil, e publicou obras de destaque, como o livro Rondônia: antropologia etnográfica. Invejavelmente ativo, o cientista ocupou os cargos de diretor do Museu Nacional, Instituto nacional do Cinema Educativo ? entidade fundada por ele próprio ? e do Instituto Indigenista Americano do México. Lançou ainda os livros Ensaio de antropologia brasileira, Seixos rolados (1927, ano em que foi eleito para a Academia Brasileira de Letras) e Estudos Brasilianos, e o documentário Argila. Contudo, é possível que o seu maior feito tenha sido o de cofundar a primeira emissora de rádio do Brasil. Coube a ele, e ao também cientista Henry Moritze, a idealização de um projeto de difusão educativo-cultural através do rádio, que redundou na criação da 1ª emissora brasileira, a Sociedade do Rio de Janeiro, em 20 de abril de 1923 ? vinculada à Academia Brasileira de Ciências, entidade da qual faziam parte os seus fundadores e membros, que sustentavam a emissora por meio de contribuições. Já em 1925, a Sociedade apresentava programas instrucionais de Geografia, História do Brasil, higiene, Silvicultura, Química, História Natural e Física. Os cientistas, aliás, eram os responsáveis pelos programas. Apesar do início alentador, cheio de idealismo, havia inconvenientes concretos. A restrição do poder aquisitivo ? e a consequente restrição dos ouvintes ? era só o começo. Além de taxas governamentais e de contribuição à emissora, os pretensos ouvintes precisavam superar uma jornada burocrática que inclui até mesmo a confecção de um projeto com o traçado do receptor. Em 1936 a rádio Sociedade é doada ao MEC, dando origem à Rádio MEC. A mídia rádio jamais sairia dos ouvidos e dos corações brasileiros.