Opinião
A LIGA��O PARA MENEM
O professor emérito da USP José Goldemberg acaba de prestar relevante serviço à opinião pública nacional, ao ofertar sua inteligência para discorrer sobre o acordo nuclear firmado entre os EUA, a Rússia, os países da União Europeia e o Irã. Como presidente da República, contei com sua dedicação à frente do Ministério da Educação e das Secretarias de Ciência e Tecnologia e do Meio Ambiente. Na titularidade desta última, participou da organização da ECO-92. Tenho orgulho de afirmar que meu governo viabilizou, no Rio de Janeiro, a conferência sobre meio ambiente mais importante da história, quando o Brasil reuniu 180 chefes de Estado e de governo do mundo inteiro. O acordo mencionado, além de proporcionar o retorno à normalidade das relações entre Irã e EUA, rompidas há mais de três décadas, deverá, em primeiro lugar, despressurizar aquela atmosfera de uma iminente intervenção militar americana no território iraniano. Estou de acordo com o professor Goldemberg, quando vislumbra nesse entendimento a possibilidade concreta de se fixar procedimentos a serem utilizados pelas grandes potências, de hoje em diante, para sustar a proliferação nuclear no resto do mundo. Bom seria também que, desse fato, surgisse um processo de desativação das armas nucleares em poder dessas mesmas potências. Examinando ainda os desdobramentos do acordo, o professor ressalta o fato de que as sanções econômicas internacionais surtiram efeitos e funcionaram como impeditivo na corrida nuclear. A partir de agora, os iranianos terão seu programa de enriquecimento de urânio, ao nível de 5%, monitorado pela Agência Internacional de Energia Atômica. Quer dizer, o programa dos aiatolás passa, mais de 30 anos depois, a ser quase igual ao do Brasil. Nós dominamos a tecnologia de enriquecimento do urânio, mas não somos objeto de suspeição internacional nem de sanções econômicas. É aí que o professor, em seu artigo publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo, realçou um fato histórico e decisivo na definição do programa brasileiro: ?A razão pela qual isso correu é que, em 1992, o presidente Fernando Collor e o presidente Carlos Menem, da Argentina, decidiram que não era de interesse comum dos dois países alimentar uma corrida armamentista no Cone Sul da América Latina, estimulada por grupos militares e que incluía o desenvolvimento de armas nucleares e foguetes de longo alcance para lançá-las?. Nesse episódio, firmei entendimento com o presidente Carlos Menem por conversa telefônica. Eu, no Planalto; ele, na Casa Rosada. De forma direta e objetiva, apalavramos que o programa nuclear brasileiro e argentino teria apenas objetivos pacíficos ? e assim ficou consagrado o banimento de armas químicas e bacteriológicas. Prossegue o professor: ?A decisão foi tomada não só para economizar vultosos recursos, mas também em razão do reconhecimento, pelos dois presidentes democraticamente eleitos após anos de governos ditatoriais -, de que a prioridade de seus governos era resolver os problemas de subdesenvolvimento dos seus países, e não o envolvimento em programas controvertidos, como a produção de armas nucleares?. Essa ação controversa de certos segmentos, em relação à utilização do urânio enriquecido, ressurgiria em 2002. O professor Goldemberg escreveu: ?Mas o então recém-eleito presidente Lula, como anteriormente o presidente Collor, teve o bom senso de perceber que não seria a posse de armas nucleares que daria prestígio ao País, e sim a solução de seus problemas sociais por meio de programas menos onerosos, como o Bolsa Família?. Este relato também compõe o quebra-cabeça da recente quadra histórica brasileira. Ao resgatá-lo, reafirmo meu compromisso com uma cultura de paz e reitero minha convicção de que a nossa soberania passa pela consolidação das instituições democráticas e pela elevação da qualidade de vida da população. Passa, sobretudo, pelo desenvolvimento baseado em princípios sustentáveis.