Opinião
O MENINO
Como a grande maioria das famílias brasileiras, nosso personagem nasceu em berço pobre. Aliás, nos primeiros dias após o seu nascimento, nem berço teve e não poderia ser diferente diante das circunstâncias que o moribundo veio ao mundo. Foi gerado no ventre de uma dessas mulheres chamadas de ?vida fácil?, que imediatamente depois de expelir aquela coisa, cuidou de despejar, protegendo do sol, numa caixa de sapato, na calçada da pessoa que ela, a mãe biológica, achava que era a casa do pai. O leiteiro encontrou a encomenda logo nos primeiros sinais da luz da manhã. Nervoso, agoniado com o achado, bateu estressadamente na porta gritando histérico para d. Maria ver o que estava acontecendo. A senhora estremeceu ao deparar-se com a cena. Nunca passou pela sua cabeça que isso um dia poderia acontecer. Pensando bem, até que nem tinha muita certeza se aconteceria ou não, afinal, seu marido era uma flor mau cheirosa, um bêbado mulherengo que ficava cada vez mais perigoso e ameaçador dentro de casa, inclusive com a mulher e os dois filhos legítimos do casal, até o dia em que a cirrose hepática o embriagou para sempre. Antes, jogara no lixo todas as oportunidades de trabalho e vida digna que lhes foram oferecidas. Falava mais alto o espírito delinquente de que era processo. Generosa, de boa índole, Maria não teve tempo para pensar. Imediatamente, acolheu o bebê, adotando-o com o novo filho que acabara de nascer. Com afeto, carinho, dedicação plena, o menino foi criado entre ?pais e avós? que lhes devotaram uma tempestade de amor. A mãe, lá no seu âmago, sempre teve certeza de que o verdadeiro pai do filho adotivo era fruto de mais uma traição do marido. Não parou por aí e o destino daquele menino ainda revelaria novas surpresas. Já na adolescência, a família percebeu nele algumas atitudes, atitudes estranhas para um jovem daquela idade. Jeito efeminado e comportamentos esquisitos finalmente revelaram que o moço não era igual aos demais colegas da sua idade. O bebê deixado na calçada da d. Maria anos atrás, adotado e criado com tanto amor, era gay. Sua mãe veio a falecer muito cedo e o destino o fez macumbeiro. Cumprindo os rituais que a vida lhe reservou, segue professando a missão de ?servir? ao próximo quer seja despachando o bem ou o mal, conforme o tamanho da encomenda.