Opinião
O TEMPO E AS INGRATID�ES
Conta a história da Mitologia que Zeus, um deus do Olimpo, veio à terra conhecer seus habitantes, homens e mulheres. Apaixonou-se por eles. Resolveu oferecer-lhes um presente. O que daria? Queria algo que agradasse a todos. Parar o tempo, talvez fosse a melhor decisão. Parando o tempo, ninguém envelheceria, ninguém morreria, ninguém sofreria desgastes. Não haveria sucessão de anos, meses e dias. O tempo deixou de passar pela decisão de Zeus. Semanas depois, a aprazível residência terrena desse simpático deus foi invadida por crianças, adultos e velhos. Todos protestavam. Seria uma revolução? Crianças desejavam crescer, tornar-se jovens, ser adultos; não queriam continuar crianças a existência inteira. Adultos queriam ver os filhos crescerem e ansiavam por novas emoções. E os idosos esbravejavam contra as limitações da idade, achaques e reumatismos. O ser supremo sentiu compaixão por esses pobres mortais tão incompreensíveis, alienados, repletos de ingratidões. Gradualmente, seu sentimento de ternura transformou-se em desprezo, raiva e ira. Pensou e decidiu. Farei o que vocês querem. O tempo voltará a passar. Entretanto, uma condição será acrescentada: os momentos de prazer, de alegria, de contentamento serão rápidos, breves e fugidios. Os momentos de dor, de incerteza e de solidão custarão a passar, serão morosos, demorados e aflitivos. O tempo virou castigo divino. Ingratidão, quem não foi vítima dela? Qual o homem ou mulher que em algum momento de vida não foi vítima de algo que foi feito a que merecia reciprocidade. A não ser como diz o poeta que ?quem passou pela vida em brancas nuvens/ E em plácido repouso adormeceu,/ Foi espectro de homem, não foi homem,/ Só passou pela vida, não viveu?. Dificilmente alguém escapa de ingratidões, fatalidades, perdas irreparáveis, tristezas e desesperos. Quem acredita em um Deus maior que preside as ações humanas, encontra lenitivo e força espiritual para superar momentos de infinita angústia. A fé é couraça e combustível da esperança. Mario Lago, aos 90 anos, afirmava que viveria até os 100 anos. ?Não sou aquele velho que diz: Ah, no meu tempo! Meu tempo é agora. Não adianta pensar em como eu era quando tinha 40 anos; por isso, não fico na calçada vendo a banda passar, vou junto com ela. Olho sempre para a frente?. O tempo segue rápido, veloz, indiferente ao nosso espanto.