Opinião
MEU AMIGO PANCR�CIO
Nossa amizade é arretada. Mesmo nascida nos estertores de nossas vidas, afinal somos septuagenários, a cada dia continua tão viçosa quanto a sua terra natal. Sempre nos encontramos aos sábados para pôr a conversa em dia, regada a uma loira gelada. Esclareço não se chamar Pancrácio. Mas, depois do que vou narrar e inspirado pela ficção de Pompeu de Toledo, Conto de Natal, em Veja, não tive outra alternativa para apelidá-lo. Em seu texto, Pompeu traz à baila o que vemos diariamente em todos os ambientes. É o distanciamento de quem está próximo e a aproximação de quem está longe. O mundo informatizado tem legado essa aberração. Narra que um sobrinho convida o tio Pancrácio, morador de uma ilha e totalmente desinformatizado, para a ceia de Natal. Mesmo já conhecendo o telefone celular e os fiozinhos que o ligam aos ouvidos, estranhou a proliferação de outros apetrechos como tablet e afins. Quando a sobrinha cumprimenta-o com dois beijos, sem contudo tirar o fone do ouvido, quase responde a uma pergunta que não lhe era dirigida e sim ao interlocutor distante. E lá se foi a noite em que, mesmo sentindo-se muito bem e querido por todos, notou a falta do congraçamento tão comum naqueles momentos. Quando, no Natal seguinte, recebeu um novo convite, lá chegou carregando uma grande mala, para surpresa de todos. Sentou-se perto de uma mesinha e abriu seu baú de ?novidades?. Primeiro, foi a velha máquina de escrever que chamou a atenção da moçada, que dizia: ?vejam, não precisa nem de impressora?. ?Essa hastezinha que leva as letras até o papel, é assim que se passa dentro do computador?. E vieram a caneta-tinteiro e o mata-borrão, que pareceu às crianças uma gangorra. Todos queriam escrever com a pena e depois tirar o excesso de tinta com o mata-borrão. E assim passou-se a noite onde todos interagiram tirando fotos com uma velha Kodak. Estávamos no nosso sabático encontro, quando o meu amigo, que usa o celular apenas para falar e receber e não quer saber de computador, notou um jovem em mesa vizinha à nossa, absorvido pelos aplicativos de seu ?smart?. Disse-lhe que até serve de companhia quando se está só. Acontece que, pouco tempo depois, chega uma bela moça, beija-o na boca, senta a seu lado e ele continua a digitar. Como não tinha nenhum dos apetrechos do tio do conto, meu amigo levantou-se e perguntou ao rapaz: ?vai continuar mexendo neste celular com essa linda mulher ao seu lado??. Não tive como não chamá-lo de Pancrácio.