Opinião
A MULHER DE BRANCO
Na movimentada esquina da cidade grande, uma figura feminina acompanhada de um menino, chamou a atenção do homem maduro que trilhava o mesmo caminho, pelo seu porte altivo, sereno e de suave beleza. O vestido todo branco, de tecido trabalhado e simples, realçava suas linhas esbeltas, sua leveza de ser e seu olhar sem mistérios. Empolgava pela naturalidade de seu encanto, pela expressão feminina de seus passos tranquilos, denunciadores de suas lindas pernas, harmoniosas e de cálidas sugestões. Parecia estar acima das emoções reinantes naquela manhã ensolarada, agitada e de repente submissa à mensagem de sua presença terna e comovente. Diante do sinal da esquina, parou por alguns instantes. O menino acompanhava seus gestos disciplinados. Em seguida, definiu sua direção sem trêmulas escolhas. Meramente prosseguia, flutuava na nuvem invisível de seu pensamento, na cogitação de seus silenciosos sentimentos. O olhar do homem maduro era diferente dos olhares dos demais transeuntes, ocupados e apressados. Recolheu sua imagem, nos detalhes do seu desenho de mulher e no simbolismo da promessa de seus olhos sonhadores. Passava a ideia de ser uma pessoa na busca de uma alma gêmea, capaz de compor, ao seu lado, a música de seus devaneios e de seus desejos guardados. O vestido da mulher de branco poderia ser de outra cor qualquer; vermelho, azul, amarelo, verde ou estampado. Mas, era precisamente branco como uma suave insinuação a inspirar as letras do texto de uma canção ou de um poema de amor. A multidão dos passantes não percebeu a sedução comovedora de sua presença límpida e verdadeira. O observador atento se tornou assim, ilusoriamente, detentor daquela imagem romântica que impregnava de sonhos àquela manhã de sol escaldante. Não se tratava de uma admiração fugaz, eram sentimentos que almejam uma realidade. O homem maduro, através do pensamento, buscou tradução sentimental em alguma passagem dos versos ou textos de Carlos Pena Filho ou do Mauro Motta. Surgiu na memória, no entanto, a lembrança difusa das palavras de Rubem Braga ou de Carlos Drummond de Andrade. A imagem da mulher de branco começou a se perder entre o universo das pessoas. Antes de desaparecer plenamente, cruzou a tranquilidade de seu olhar com a declarada emoção do olhar do seu atento observador. Deixou no ar, uma doce interrogação, sobre o destino de seus passos e o disciplinado impulso de seus desejos.