Opinião
AUTOMEDICA��O E RESIST�NCIA A ANTIBI�TICOS
Parece ser um assunto banal, mas merece reflexão. Há pessoas fanáticas por remédios, mantêm a bolsa cheia deles. Remédios para todas as idades e ocasiões. Uma expressão popular é de realidade contundente: ?de médico e de louco, todos nós temos um pouco?. É muito comum o hábito da automedicação. Agora, automedicação, uso de medicamentos por conta própria ? que pode ser sinal de confiança, autoconfiança ou exagerada confiança em si mesmo ?, esbarra nos limites normais do conhecimento de cada um. Recentemente, uma revista não científica publicou pormenorizado estudo sobre o uso e os efeitos da automedicação. Diz: ?Tomar medicamentos por conta própria pode causar tanto mal quanto uma doença. Todo ano, 24 mil brasileiros morrem por causa de automedicação?. Um fato do passado não me sai da mente. Na década de 1960, iniciava-se a grande revolução no tratamento da tuberculose. Três produtos farmacêuticos realizavam curas milagrosas. Doentes chegavam ao hospital Sanatório magros, esqueléticos, acamados. Após três meses de tratamento, ninguém mais os reconhecia: engordavam 10 quilos, corados, não mais contaminantes. Recebiam alta e todas as recomendações possíveis para a continuação do tratamento no ambulatório. E aí o desastre: muitos abandonavam o tratamento. Meses depois, voltavam ao hospital. E os remédios não mais faziam efeito: haviam ficado resistentes a esses antibióticos. Resistentes como consequência dos meses sem o uso dos medicamentos. Ouvi recentemente: o Brasil tem mais farmácias que padarias. Cálculos de entendidos no assunto referem 80 mil estabelecimentos que vendem remédios e 50 mil unidades que vendem pão. Parece exagerada a informação porque pão é alimento, o pão de cada dia, e remédio é aquilo que se toma para combater uma dor, um mal-estar, uma enfermidade. Não está longe da realidade o fato que vou narrar. Uma senhora teve a bolsa roubada em plena via pública: lágrimas, protestos, gritos, angústia. Seu primeiro pensamento foi para os documentos e o dinheiro perdidos; o segundo ? sua preocupação maior ? foi com os dez remédios que estavam na bolsa, que toma diariamente e nem lembra o nome de todos. Remédios são necessários, quando necessários. Substituir comida por remédio é erro absurdo sem precedentes. Automedicação é arma de dois gumes; pode ter vantagens, mas suas desvantagens são evidentes. Antibióticos tomados indiscriminadamente levam a resistência a esses fármacos.