Opinião
FANTASIAS
Nasci num sábado de carnaval às 23h, no Rio de Janeiro, terra do mais tradicional carnaval do Brasil. Enquanto fazia o meu primeiro contato com o mundo exterior, no quarto de uma maternidade, lá fora as ruas trepidavam com a passagem dos foliões e dos batuques animados, abrindo o reinado de Momo. Tenho certeza de que os fluidos da noite carnavalesca influenciaram a minha personalidade, como se os espíritos flutuando no espaço, atraídos pelos sons do Zé Pereira, houvessem me tocado com suas mãos sobrenaturais fazendo-me uma de suas súditas. Fui sempre amante de festas, de alegria, sobretudo de carnaval! Adorava me fantasiar, como se, por alguns momentos, adquirisse uma nova individualidade ao caracterizar-me de um personagem ilustre, ou de um habitante de longínquas terras, ou de uma personagem imaginária! Vivi numa época em que o carnaval era a festa que envolvia quase toda a sociedade. Havia muito de belo para ser visto nos bailes carnavalescos! As fantasias se constituíam um verdadeiro desfile de luxo e criatividade, digno de admiração. O carnaval no Brasil foi mais influenciado pelas festas que aconteciam na França e na Itália, ocorrendo em forma de desfiles urbanos, onde os indivíduos enfeitavam os carros, se fantasiavam e faziam verdadeiras batalhas de serpentinas e confetes, ao som de animadas marchinhas carnavalescas. No carnaval do meu tempo de moça, as festas se desenvolviam nos clubes ou nas ruas. As fantasias eram obrigatórias. Cada uma mais linda que a outra. Havia prêmios para as mais bonitas e originais e como era difícil para a comissão escolher a mais linda e a mais interessante. Muitos faziam blocos e a competição era grande! Aqui em Maceió haviam dois grupos que caprichavam para ganharem o prêmio dos bailes de máscaras que a Liga Contra a Lepra celebrava. Um era chefiado pela sra. Ilda Calheiros e o outro por mim. Às vezes, passava o ano interior preparando minha fantasia para frequentar os bailes do Clube Fênix Alagoana, e muitas vezes ganhei o primeiro prêmio. E ainda tinha que fazer as fantasias dos meus filhos para os bailes infantis. Mas não me cansava era um enorme prazer! Existiam também, antigamente, os corsos: batalhas de confetes e serpentinas que se desenvolviam nas ruas, e tínhamos que decorar os carros, também. Hoje, lastimamos que o hábito das fantasias tenha perdido seu lugar para as camisetas, e as orquestras se transformaram nos trios elétricos que tocam rock, axé baiano que nada têm a ver com as gostosas marchinhas, sambas e frevos. Só as escolas de samba que nasceram no Rio e hoje já existem por vários lugares do Brasil, exaltam o verdadeiro carnaval, mostrando fantasias de alto luxo e uma criatividade incrível nos enredos de suas escolas.