Opinião
Alagoas e a esquerda
EDUARDO BOMFIM (q) Em 1986 tive a honra de ser eleito pelos alagoanos, deputado constituinte. O Brasil iniciava o percurso de transição do regime ditatorial para o sistema democrático. Era fundamental, portanto, afastar o ?entulho autoritário? herdado de um longo período discricionário e fazer surgir em seu lugar uma nova constituição que representasse, minimamente, os anseios políticos e sociais reprimidos por mais de vinte anos. A Assembléia Nacional Constituinte ? que exerceu suas atividades durante dois anos ? foi um histórico momento, em que os mais diversos segmentos da sociedade fizeram-se representar através de seus deputados e senadores, que atuaram em modo unicameral, uma só casa legislativa. Além disso, o movimento sindical e diversas outras estruturas de organizações, exerceram suas legítimas pressões durante as votações temáticas. Surgiu daí uma nova carta magna que com suas virtudes e defeitos delineava a nova forma de organização do país. Infelizmente ela foi praticamente esquartejada durante o nefasto período de Fernando Henrique, sob a orientação dos interesses escusos do capital especulativo internacional e nacional. De lá para cá, todos sabemos o que aconteceu, culminando com o desabafo popular em 27 de outubro passado, e a esmagadora vitória de Lula à presidência da República ? um implacável veredicto sobre os dois governos mais entreguistas da recente história republicana. Os debates durante o período constituinte representaram um fórum especial para aqueles que lá estavam com o intuito de defender o melhor para o Brasil, independente de suas posições ideológicas. Exerceu-se a arte da política, a capacidade de negociar sem abrir mão de seus princípios. Transigir para conquistar espaços. Lutar desabridamente quando os interesses maiores da nação ou do povo encontravam-se ameaçados. As esquerdas em Alagoas precisam meditar profundamente sobre tantas lutas e sacrifícios que tivemos de vivenciar para alcançar estas duas vitórias: uma contra o arbítrio, e a outra contra o neoliberalismo, com repercussões em todo o mundo. É preciso considerar os ensinamentos dos grandes mestres da política. O desprendimento acima dos interesses de grupos. A valorização do coletivo sobre os projetos individuais. A busca de metas e programas contra a improvisação mais que desarrumada. Não confundir sagacidade com modos típicos do fisiologismo de ganhos e vantagens pessoais. As esquerdas em Alagoas necessitam conquistar a estatura que o momento histórico exige. Os alagoanos, que têm demonstrado sistematicamente nas urnas a confiança no campo progressista, estão atentos a este instante. Devemos distinguir diferenças partidárias e a busca saudável pela hegemonia, da antropofagia política. Há uma causa maior a ser defendida. A trajetória para uma sociedade mais justa e fraterna. É fundamental aglutinação, magnanimidade. Não podemos ser herdeiros do estilo excludente de mando das elites do Estado. Não somos um momento, uma fase, alguns mandatos, o perigo da mesmice. Devemos ser esta ?esperança que venceu o medo?. Fincar no presente a perspectiva de um futuro melhor e transformador. (q) É ADVOGADO