Opinião
Hora da sabedoria contra o apetite
Num rápido movimento de nova abocanhada, menos de 24 horas depois da primeira tentativa ter mordido o ar, a base aliada rebelde comandada pelo PMDB conseguiu cravar os dentes na barra da saia da presidente. Num primeiro momento, a dentada não dilacera nem mesmo machuca muito além da demonstração de força, mas causa impacto. Força o Palácio do Planalto a rever seu relacionamento com a parcela extremada do velho fisiologismo ? que, em verdade, não propõe nem quer nada de novo, apenas mais alimento. No caso mais visível da pauta de reivindicações, o objeto do desejo reprimido é um espaço um pouco maior na Esplanada dos Ministérios. Como avaliado antes, a presidente, sob pressão para ceder mais espaços e ser mais generosa na liberação das famosas verbas aos aliados (emendas parlamentares e bondades do tipo), terá que pesar os prós e contras com redobrada atenção nessa queda de braço, pois o que está avançando como simples reclamação fisiológica pode descambar em debandada política. Basta surgirem no horizonte propostas convincentes para um porvir mais mão-aberta. O que é difícil, mas não impossível. Saber tratar com aliados exigentes é condição sine qua non para o exercício do poder. Aqui e alhures. Às vésperas da eleição presidencial, num cenário no qual desponta como a favorita, a presidente torna-se mais vulnerável ao apetite de sua própria base. A ameaça em mudar de lado tende a ser usada à exaustão e para além das questões materiais exigidas pelos deputados em fúria. Nos estados, as composições entre os díspares interesses dos que formam a base aliada têm fortes contradições na maioria dos casos, ou pelo menos em vários locais importantes no tabuleiro do xadrez político. E a hora da rebelião é essa: antes das convenções. Somam-se, portanto, as dificuldades da candidatura natural e favorita. Nada mais natural, nada mais simples e nada mais complicado. É a hora do jogo de cintura, da cabeça fria, e dos lances decisivos. Dilma Rousseff, na condição de liderança política personalíssima, e não mais de candidata ungida por um dos maiores líderes políticos do País, como há quatro anos, passa por sua maior prova: conduzir a própria campanha em paralelo com a gestão de um governo sob duro cerco.