Opinião
A Li��o de Marta
Ronald Mendonça * Por vocação, dever de ofício e em nome de Deus, o frei capuchinho Severino tem aparecido na televisão concitando o povo alagoano a participar com doações para um ?Natal sem fome?. Iniciativa das mais nobres. O espírito filantrópico dos capuchinhos dispensa comentários. Coincidentemente, nesta semana recebi telefonema da minha velha amiga Marta Vasconcelos Bernardes, esposa do saudoso Zé Bernardes. Mais uma vez e de forma quase silenciosa, Marta assume o seu papel de mulher sensível aos graves problemas da cidade e pede a colaboração dos amigos para preparar as tradicionais cestas de Natal destinadas às pessoas carentes. Assim, sem alardes e despretensiosamente Marta mostra a sua cara. É possível que alguém menos avisado imaginasse que essa iniciativa fosse por conta do político Zé Bernardes e tivesse intenções eleitoreiras. Quem assim pensou errou feio: de há muito Bernardes abandonara as disputas eleitorais e as cestas mesmo assim continuaram. Há um ano o querido amigo nos deixou e a Marta ficou aí, firme, agitando. Vem de longe o engajamento de Marta. Oriunda de uma família bem estruturada, sua formação moral e religiosa é impar. Quando ainda era ?somente? Vasconcelos, já participava dos movimentos católicos na JEC ( Juventude Estudantil Católica) e depois na JUC (Juventude Universitária Católica). Líder carismática, a opção por Serviço Social foi a prova maior de que havia nascido para ajudar, para promover o bem estar das pessoas. O curioso é que o que Marta solicita como contribuição é tão pouco que, sem dúvida, ela teria condições de bancar sozinha. O que ela quer, na verdade, é mexer no lado ?cidadão? dos seus amigos, despertando-lhes a consciência, lembrando que os mais aquinhoadas ? do ponto de vista material ? não podem (nem devem) fechar os olhos para o que acontece além dos limites de suas moradias. Nesse cenário quase calamitoso ? vale registrar ?, estranhamente, há alguns dias, depois que o IBGE publicou que nada menos que 32% da população vivem com salário abaixo de R$ 100 mensais, o atual presidente da República mostrou-se ?surpreso?(?) com o número de pobres do País. Mais pé-no-chão, Lula está fixado no ambicioso programa ?Fome Zero?. Com a dolorosa experiência de quem passou pelo drama de acordar e não ter o que comer, é possível que o futuro presidente, inicialmente, exagere na mão do assistencialismo excessivo (e nocivo). Depois, Deus é quem sabe. Enquanto Lula não chega, boa parte do analgésico para aplacar a fome dos necessitados continua vindo de iniciativas como as encabeçadas por Frei Severino e Marta Bernardes. Vamos torcer para que nos próximos Natais, nenhum brasileiro dependa da caridade pública para comer. (*) é Médico e professor da Ufal