Opinião
O Louro
Marcos Davi Melo * Como sempre, acordei cedo, mesmo sendo aquele um dia especial. Ao abrir a porta da sala, defrontei-me com dois pequenos e assustados olhos, que aos primeiros raios do sol da manhã me perscrutavam interrogativamente. Paralisado, não sabia o que estava acontecendo. Talvez ainda estivesse dormindo e sonhando. Ou quem sabe, tivesse acordado em outra casa que não a minha. Os olhinhos do animal, de dentro da gaiola, ainda me inquiriam assustados. Era um pequeno e impúbere louro. Em baixo da gaiola, um papel manuscrito: ?Parabéns!?. Compreendi ser obra dos meus filhos. Quase perco a hora da caminhada, afinal, a minha filha mais nova já fez 17 anos e há tempos não sei o que é brincadeira de criança. Quase atrasado me dirigi à praia e logo encontrei os velhos amigos de caminhada. No dia que apenas nascia e para espanto de muitos que passavam no cooper matinal e tendo com o fundo o mar da Pajuçara, que se apresentava particularmente azul, os companheiros, generosos por excelência, me contemplaram além dos abraços, com os cânticos efusivos do ??Parabéns pra você!?. E a realidade pouco depois me trouxe de volta ao chão, no que parecia ser um dia de fantasias perfeito. Logo a segui , no hospital, chega-me em situação de saúde das mais delicadas, um antigo companheiro das mesmas caminhadas da praia e de idade semelhante, que há algum tempo sumira. Após cumpridos os compromissos do dia, o vinho e o jantar descontraído só com a família, não conseguiram me tirar da mente a imagem daquele enfermo e a sina inexorável que o espera. Os 27 anos de prática da cancerologia ainda não me deram esta condição confortável de distanciamento e frieza, tão úteis nestes momentos. Voltamos para casa tarde. Ainda dei uma olhada no pequeno louro. Seus olhos miúdos me contemplaram já com alguma confiança. Por momentos invejei não só a sua extrema juventude, quanto a sua irracionalidade. Fui dormir pensando em qual nome lhe dar: Carlos Heitor Cony, João Ubaldo Ribeiro, Luiz Fernando Veríssimo, ou quem sabe, Antônio Palocci, caso se torne o centro das atenções, ligeiramente obeso e vaidoso. O certo é que vai crescer.Mesmo assim, não sentirá falta destes momentos efêmeros de regozijo do coração e que gostaríamos que durassem para sempre, tampouco fugirá daqueles de padecimento indissociável da alma, que parecem eternos. Alguns destes momentos serão de confraternização e companheirismo, outros de solidão e abandono. Eterna criança, o louro será só verde e só esperança. Não perceberá perda dos amigos e dos entes queridos. Não sentirá a passagem implacável do tempo e o destino inevitável que nos espera. (*) É médico